Meu primeiro filho nasceu há alguns dias. É um garoto lindo, esperto e saudável. É mais do que isso, é querido. Minha esposa e eu o desejamos muito, oramos e cremos contra o diagnóstico terrível de infertilidade. Não sabia que era possível sentir tão violenta paixão. Entendi finalmente o que me disse o Danilo: que na primeira vez que teve seu filho em seus braços, se alguém o tentasse tomar, ele mataria. Amo assim meu filho, de forma quase selvagem. E meu amor por minha mulher, que já era grande e devotado, apesar das faíscas que duas personalidades fortes causam, meu amor por essa mulher aumentou ainda mais em forma de gratidão e respeito. Ela é sim a mulher da minha vida.
Já que falei na mulher da minha vida, nesta segunda-feira passada foi o Dia das mulheres. Foi engraçado ver o quanto as pessoas são taxativas em suas afirmações. Eu, que não gosto de taxas, escrevi algumas coisas em homenagem às mulheres, não porque elas têm “um dia para elas”. Mas sim porque devo a elas tudo o que sou. Em suma, escrevi: “Motivo mais importante para ser grato: nas mãos de uma mulher, ganhei o direito de nascer; a escolha de um homem era bem outra na ocasião”. Ocorre que a afirmação quase passou batida na quantidade de comentários a favor e contra a data. Quase porque uma pessoa foi atingida pela sinceridade daquela consideração: Eu. Sim, eu levei um baque quando li o que eu mesmo havia escrito. Sabe a tal epifania? Então, nessa frase consegui entender um dos pontos principais dos meus “pequenos dramas de um protestante diletante”.
E aqui volto atrás num ponto que sempre mantive em minha vida de blogueiro: nunca falar da intimidade das pessoas próximas a mim. Não que vá virar um despudor e vá contar causos e chiliques familiares. Pra isso, já há subcelebridades suficientes. Abro uma exceção, melhor assim, para contar um ponto específico da minha história de vida. Sou da primeira grande geração dos filhos de pais separados, dos fins de semana com os pais, da geração envergonhada de dizer que “papai não ama mais a mamãe”. Sou dessa geração, mas não é este o meu caso. Meu caso foi mais canseira um pouco. Em 1975, mamãe, que namorava papai, ficou grávida, descobriu um monte de galinhagem do papai e tomou uma decisão difícil em sua vida. Em suma, fui o famigerado “filho-de-mãe-solteira”. Isso na década de 1970 não era bolinho.
Neste mesmo 1975, em outubro, Vladimir Herzog foi encontrado morto na cela do DOI-CODI. Outra vida teve destino diferente: a minha [e daqui explico uma das poucas posturas intransigentes que tenho na vida]. Sim, a decisão mais difícil da vida de minha mãe não foi “casar ou comprar uma bicicleta”. Foi olhar o homem que a engravidou e dizer: “Não, eu não vou tirar o bebê!” [um pouco mais de metatexto: agora começa a parte ‘drama’ do título. Se já achou piegas até aqui, vá ver as últimas notícias do BBB ou rir das kibadas do Tabet]
Não sou contra o aborto porque seja pecado. É pecado, mas como tal Deus perdoa. Não sou contra o aborto porque seja crime. É crime, mas pode deixar de ser com uma canetada num pedaço de papel oficial. Não sou contra o aborto porque acho que a mulher não tem domínio sobre seu corpo. Tem sim, o que falta a muitas é responsabilidade sobre ele. Minha única razão para ser contra o aborto sou eu mesmo [e essa razão é incontestável para mim]. Meu único motivo para não admitir o aborto como solução para concepções não desejadas está diante de mim todos os dias no espelho. Minha mulher diz que é feliz, que se sente abençoada ao meu lado. Minha mãe se orgulha quando ouve isso. Meu pequeno filho é lindo, esperto e saudável. Minha mãe, minha mulher e eu nos alegramos muito com ele. Eu já fiz muita merda na vida, mas tenho uma caminhada até legal. A família da minha mãe me ama, me admira e gosta pra caramba de mim. Eu tenho alguns grandes amigos e tenho gente que gosta de mim mais do que eu faço por merecer.
As considerações do último parágrafo é que me fazem ver no Dia das mulheres não uma data para dar flores ou fazer gracejos, mas um dia para olhar para minha mãe e não falar nada, apenas explodir de orgulho de ser seu filho. Minha mãe é talvez, talvez porcaria nenhuma, minha mãe é sim a mulher mais corajosa que eu conheço. Eu sei. Eu estou aqui pra provar. Trinta e tantos anos atrás, ela cometeu um desatino: ela sacrificou seu futuro, sua juventude e seus sonhos, mas não me sacrificou. “Credo, Tom, falando assim o aborto até parece uma coisa ruim”. Não estou mais falando de aborto, estou apenas agradecendo a minha mãe por ela não ter aceitado a proposta covarde do meu pai biológico. A propósito, sim, eu o conheço e durante anos a fio até tentei conviver. Ele é muito bem-sucedido em sua carreira, casou-se e tem três filhos. Os únicos que ele apresenta como filhos. Tentei fazê-lo me amar, mostrar para ele que eu “valia a pena”. Inútil. Para ele, em sua covardia, é como se minha mãe tivesse tomado a “decisão certa”.
Um posfácio, se me permitem
Faltou a parte em que dou lição de moral e digo que a mulher vai pro inferno se abortar, né? Afinal eu sou cristão e “os cristãos pensam assim”. Eu não farei isso. Sei que há casos em que a dor da maternidade seria insuportável, não cabe a mim dizer até onde alguém deve ir. Sei também que há situações em que uma escolha de vida ou morte deve ser tomada. Se for este o seu dilema, eu, na minha “intransigência”, peço apenas o seguinte: reflita, medite, ore, reze, faça o que for, antes de tomar a “decisão certa”. Ouvi de um pastor algo muito significativo: “Não bata no peito pra condenar uma mulher prestes a abortar sem ter a coragem de dizer ‘me dê, eu quero esse filho pra mim’”. Uma das decisões que eu e minha mulher tomamos diz respeito à adoção. Sei que, como nós, inúmeras outras famílias anseiam pela chance de ter um filho nos braços. Então, sim, eu condeno com todas as minhas forças o aborto. Principalmente o aborto contraceptivo, o estético e o tardio. Não consigo imaginar o aborto como política de saúde pública, me desculpem. Mas não condeno a mulher que, movida pelas circunstâncias, faça o aborto. Todavia, se houver como, procure alguém [tenho pessoas sérias para indicar] e abra seu coração. Oro para que você escolha “errado” e dê, doe, oferte para alguém a criança que você não quer, ou não pode querer. Um dos maiores milagres de Deus está em transformar o sofrimento em alegria, o desespero em contentamento e o ódio em amor. Eu sei. Eu sou prova viva disso.
[Prometi esse texto ao @roneyb, do Meme de carbono no fim do ano passado. Espero que ele entenda minha demora.]


