Trabalhando numa versão diagramada de um texto clássico, eu e minha chefinha nos vimos diante da seguinte frase em um diálogo:
— Se as bolas estão tão murchas, por que você não está disposto a enchê-las? — perguntou-lhe o borracheiro.
Ok, não há problema algum com o período. Os travessões fazem muito bem o papel de marcadores de discurso direto e a inicial minúscula em ‘perguntou-lhe’ mostra que a pergunta é um único período composto. O problema começa na diagramação. Por serem frases curtas, marcadas por travessões, o texto ficou diagramado assim:
— Se as bolas estão tão murchas, por que você não está disposto a enchê-las? —
perguntou-lhe o borracheiro.
Feio não? Sim, mas correto. Podia ser pior, e errado, se ficasse assim:
— Se as bolas estão tão murchas, por que você não está disposto a enchê-las? — per-
guntou-lhe o borracheiro.
Feio e editorialmente errado pelo excesso de marcadores no fim da primeira linha, travessão e hífen de separação silábica, e pela quebra da primeira palavra no período “perguntou-lhe o borracheiro”.
A solução nesses pequenos diálogos é sempre complicada. Algumas vezes, dependendo da liberdade editorial com o texto, é possível fazer alterações na estrutura, como abaixo:
— Se as bolas estão tão murchas — perguntou-lhe o borracheiro — por que você não está disposto a enchê-las?
Mas isso significaria que, a cada edição, a cada diagramação, o texto poderia sofrer pequenas alterações? Sim, isso mesmo. Por isso, é uma decisão difícil e, via de regra, deixada de lado. Bom, os travessões vêm de épocas em que as edições eram quase que definitivas, épocas de linotipos e tipografias sérias e sisudas. Com o passar dos tempos editoriais, e com os travessões atravessando a vida de editores, compositores [os avós dos diagramadores] e gráficos, o uso das aspas ganhou espaço e muitos diálogos começaram a ser grafados assim:
“Se as bolas estão tão murchas, por que você não está disposto a enchê-las?”, perguntou-lhe o borracheiro.
ou então:
“Se as bolas estão tão murchas”, perguntou-lhe o borracheiro, “por que você não está disposto a enchê-las?”
Óbvio que o problema da hifenização não existe mais. Mas, o uso das aspas delimitando discursos diretos dentro da narração nunca foi consenso e, com a andança das carruagens, as aspas também caíram e hoje, na maioria dos textos contemporâneos, você lerá diálogos assim:
Se as bolas estão tão murchas, por que você não está disposto a enchê-las?, perguntou-lhe o borracheiro.
No exemplo acima, uma única vírgula separa o discurso direto do personagem da fala do narrador. Tempos econômicos, meus caros. Na atual produção editorial, textos mais limpos são textos melhores. Fica o comentário.






