Arquivo para maio, 2011

31/05/2011

Pequeno comentário sobre diálogos

por @tomfernandes

Trabalhando numa versão diagramada de um texto clássico, eu e minha chefinha nos vimos diante da seguinte frase em um diálogo:

— Se as bolas estão tão murchas, por que você não está disposto a enchê-las? — perguntou-lhe o borracheiro.

Ok, não há problema algum com o período. Os travessões fazem muito bem o papel de marcadores de discurso direto e a inicial minúscula em ‘perguntou-lhe’ mostra que a pergunta é um único período composto. O problema começa na diagramação. Por serem frases curtas, marcadas por travessões, o texto ficou diagramado assim:

— Se as bolas estão tão murchas, por que você não está disposto a enchê-las? —

perguntou-lhe o borracheiro.

Feio não? Sim, mas correto. Podia ser pior, e errado, se ficasse assim:

— Se as bolas estão tão murchas, por que você não está disposto a enchê-las? — per-

guntou-lhe o borracheiro.

Feio e editorialmente errado pelo excesso de marcadores no fim da primeira linha, travessão e hífen de separação silábica, e pela quebra da primeira palavra no período “perguntou-lhe o borracheiro”.

A solução nesses pequenos diálogos é sempre complicada. Algumas vezes, dependendo da liberdade editorial com o texto, é possível fazer alterações na estrutura, como abaixo:

— Se as bolas estão tão murchas — perguntou-lhe o borracheiro — por que você não está disposto a enchê-las?

Mas isso significaria que, a cada edição, a cada diagramação, o texto poderia sofrer pequenas alterações? Sim, isso mesmo. Por isso, é uma decisão difícil e, via de regra, deixada de lado. Bom, os travessões vêm de épocas em que as edições eram quase que definitivas, épocas de linotipos e tipografias sérias e sisudas. Com o passar dos tempos editoriais, e com os travessões atravessando a vida de editores, compositores [os avós dos diagramadores] e gráficos, o uso das aspas ganhou espaço e muitos diálogos começaram a ser grafados assim:

“Se as bolas estão tão murchas, por que você não está disposto a enchê-las?”, perguntou-lhe o borracheiro.

ou então:

“Se as bolas estão tão murchas”, perguntou-lhe o borracheiro, “por que você não está disposto a enchê-las?”

Óbvio que o problema da hifenização não existe mais. Mas, o uso das aspas delimitando discursos diretos dentro da narração nunca foi consenso e, com a andança das carruagens, as aspas também caíram e hoje, na maioria dos textos contemporâneos, você lerá diálogos assim:

Se as bolas estão tão murchas, por que você não está disposto a enchê-las?, perguntou-lhe o borracheiro.

No exemplo acima, uma única vírgula separa o discurso direto do personagem da fala do narrador. Tempos econômicos, meus caros. Na atual produção editorial, textos mais limpos são textos melhores. Fica o comentário.

30/05/2011

Então você quer ser escritor

por @tomfernandes

Então Você Quer Ser Escritor? from Douglas Machado on Vimeo.

Novo livro de Miguel Sanches Neto, Então você quer ser escritor? da editora Record, produzido pela empresa A TRINCA FILMES

Vi no Livros e pessoas

30/05/2011

Falam quando deveriam ouvir…

por @tomfernandes

“Muitas pessoas procuram um ouvido atento, e não o encontram entre os cristãos, porque esses falam quando deveriam ouvir.” D. Bonhoeffer

Se nos tempos nazistas, Dietrich Bonhoeffer já tinha essa percepção, como estarão os ouvidos cristãos em nossos dias?

Estão os cristãos evangélicos brasileiros tão preocupados em falar, em pregar, em propagandear, em se fazerem ouvidos que não há ouvidos ou coração dispostos a ouvir o clamor de tantas vozes oprimidas em nosso país?

Ao adquirir rádios, TVs, editoras, prédios imponentes, mansões em condomínios fechados, conseguem os líderes evangélicos seguir o chamado de Cristo, como fez Dietrich, ou se encastelam em seus privilégios econômicos, políticos e sociais, como fez boa parte dos líderes evangélicos ante o nazismo alemão ou, aqui mesmo no Brasil, ante o golpe militar de 1964 e a ditadura que se instalou e manteve por décadas à custa de milhares de vidas?

Neste exato momento, o que faz a liderança evangélica ao negociar seus olhos fechados e sua boca cerrada para não cobrar decência e ética do governo federal e, em troca, pedir que o governo lhe entregue nas mãos os direitos e a cidadania dos homossexuais?

Agem os evangélicos hoje como Dietrich Bonhoeffer, que saiu de sua posição cômoda e foi lutar contra o regime de Hitler, que matava judeus, alemães dissidentes e qualquer outra minoria? Ou as preocupações deste mundinho gospel foram demais para seus corações?

Tempos tristes quando não há ouvidos para ouvir o clamor do pobre, do perseguido e do injustiçado.

Tempos tristes de louvor a si mesmos.

Tempos evangélicos.

25/05/2011

Uma advogada quer ser escritora. E agora?

por @tomfernandes

Uma amiga advogada resolveu ser escritora e quer escrever um livro. Cansou da dura lex, sed lex e quer algo a mais com as letras do que uma sucessão de parágrafos e alíneas. Trocamos umas ideias e ela me autorizou a publicar aqui um resumo porque achei que calharia a este nosso espaço.

 

Oi, Tom. Então, eu tive uma crise, larguei o escritório e agora estou mais ou menos desempregada.

Sempre chega a hora de viradas profissionais, não é? Bom, não posso garantir sucesso a ninguém, mas há dez anos larguei a sala de aula e deixei de ser professor para ser revisor e assim me achegar mais às letras. Não tem um dia em que eu não me sinta feliz de ter tomado essa decisão. Hoje, além de revisar, edito livros e revistas, e escrevo profissionalmente para vários clientes. Ainda não publiquei nada autoral, mas pretendo fazê-lo no próximo ano. Pra mim, tem valido a pena.

Assim, já que aconteceu isso, pensei em começar a escrever a sério, se é que isso realmente tem futuro!

Escrever a sério é igual ser pedreiro a sério, tem que pôr a mão na massa durante todo o expediente, erguer parágrafos e juntar páginas. Escrever a sério é uma decisão séria, assim como ser policial a sério e não apenas brincar de polícia e ladrão, ou ser médico a sério e não apenas ficar nas brincadeiras com as primas e vizinhas. Sugiro que encare a carreira de escritora com a seriedade com que encarou a carreira de advogada.

Minha ideia era publicar algumas crônicas do meu blog e algumas histórias inéditas, mas não sei por onde começar.

Ora, comece escrevendo, escrevendo muito. Digo isso não porque a quantidade encha os olhos, mas é que dela se extrai a qualidade. Publicar material já disponibilizado na web é boa ou má ideia? Não sei, depende do contexto. Mas, de qualquer forma, é preciso gerar conteúdo, seja para o blog, seja para o livro em papel ou digital. Depois, só depois, pense em selecionar esses textos e transformá-los no objeto livro.

Além disso, queria uma opinião sincera sobre o interesse que esse livro poderia causar.

Agora algo que desaponta a muitos. Em muitos círculos, o interesse pelos livros de novos autores hoje se faz mais pelo interesse que se cria em torno do autor do que necessariamente não muito em torno de seu livro. Mas ainda há espaço para autores desconhecidos que mostrem textos relevantes tanto pela forma quanto pelo conteúdo. Há espaço tanto em grandes quanto em pequenas editoras, embora estas sejam mais abertas aos novos autores. Há também o caminho das edições independentes, mas esse já é outro assunto.

Também penso em oferecer meu trabalho a jornais e revistas aqui da região, para, quem sabe, ter uma coluna. Acho isso difícil, mas tem gente q leio aí tão sem graça. Então pensei: por que não eu?

Por que não você? Por motivo algum. Talvez seja este o caminho mais rápido para começar a escrever profissionalmente. Não digo o mais fácil, nem o imediatamente mais lucrativo. Mas talento e trato com as palavras você tem. O que falta é a cigarra virar operária. Escrever, ao contrário do que gracejam, não é nada além de trabalho braçal da mente. Pouquíssima coisa há de inspiração e genialidade na quase totalidade dos textos hoje publicados em jornais e revistas, e mesmo em toda a web. Mesmo que você comece gratuitamente, aos poucos, seu texto deixará de ter apenas valor e começará a ter também preço. Eu sei, tem sido assim também comigo.

Agora, um pouco de pragmatismo – se me permite a intimidade – sobre ser escritora. A vida de um escritor é escrever. É mais fácil você hoje conseguir escrever para veículos do que para si mesma. De começo? Diga “sou advogada e redatora freelance” aos contatos. Escreva mais e mais no seu blog, sempre que possível respeite as 500 palavras. Escreva pelo menos um texto diário com mais de 300 palavras. A máquina precisa estar bem “amaciada” antes de pegar trajetos maiores. Cada texto que você escrever será apenas um tijolo. Ao longo do tempo você terá proteção contra o vento, sol e chuva com eles. Em suma, a vida de uma escritora se faz escrevendo, não publicando livros. Ah, leia outros textos a esse respeito que postei no meu blog. Eles também falam sobre escrever profissionalmente e creio serão úteis.

Bom, este papo tem alguns meses e, de lá pra cá, ela tem escrito bastante em seu blog, embora tenha aberto seu próprio escritório de advocacia. Mas acredito que logo, logo terei um exemplar de seu primeiro livro com uma dedicatória bem legal.

23/05/2011

Dias em que tudo é nada

por @tomfernandes

Sabe dias assim? Em que tudo é nada? Em que nada é como você previu que fosse e, por isso mesmo, tudo saiu muito melhor do que você esperava?

São dias assim que me fazem ter a certeza de que não há um mapa traçado, uma trilha cravada, um roteiro pré-definido, mas são dias assim que me surpreendem com o carteiro me esperando na esquina certa, com uma mensagem para mim, com boas novas que eu nem esperava.

Sabe dias assim? Em que você acorda com a sensação de ser um bosta, de estar fazendo tudo errado e, do nada, alguém te chama, te diz algo sensacional e, pasmo, diz que outras pessoas falam de você coisas mais sensacionais ainda?

Sabe dias assim? Em que qualquer teologia se mostra mais pecado do que nunca, mas fétida do que sempre, mais imprestável do que de costume? E, de repente, TUDO faz um sentido tão solene, alegre e amigável e NADA precisa ser acrescentado?

Este fim de semana, o mundo não acabou, um amigo se casou virgem e eu tive medo de marimbondos. Este fim de semana um amigo querido foi ferido por evangélicos ensandecidos em sua cruzada contra tudo de bom que foi dito e feito por Jesus. E escrevi, para este amigo, um texto que um dia eu gostaria que escrevessem sobre mim.

Hoje, véspera de feriado em Goiânia, emendado no DO, fiquei com meu filho na casa da minha mãe. Hoje fui tão feliz ali, sendo filho e sendo pai, enquanto trabalhava para meus clientes de São Paulo e minha avó se curvava ante a vida no seu bisneto de quinze meses.

Amanhã é feriado em Goiânia [dona Auxiliadora, brigadão, viu?] e talvez eu vá dar fim numa caixa de marimbondos. Talvez, amanhã, Deus faça um milagre novo e o dia seja francamente feliz. Amanhã, vou acordar cedo, trabalhar pros meus clientes fora da cidade e brincar com meu filhote, cujo maior prazer é rodar absoluto nos meus braços.

Hoje é um dia assim. Em que qualquer coisa que eu ousasse pedir a Deus seria demais. Qualquer coisa que eu desejasse seria exagero. Qualquer objetivo que eu tivesse seria equivocado.

Sabe dias assim? Em que tudo é nada? Em que tudo o que posso desejar é que você também tenha dias assim.