A fotossíntese da fé e o estranho evangelho hidropônico gospel

por @tomfernandes

Todos nós que um dia passamos pelas séries iniciais da escola temos o ciclo da fotossíntese gravado como tatuagem em nossas lembranças de infância. Pois, mesmo assim, permita-me recordá-lo: fotossíntese é isto.

Resumindo [já que você não acessou o link da Wikipédia mesmo]: Seria a fotossíntese algo além de uma planta usar da luz solar e da água para transformar um gás poluente e perigoso como o gás carbônico em oxigênio essencial para a vida alheia e ainda alimentar a planta com sais minerais presentes no chão, na terra, no húmus? [Sim, o processo está muito simplificado, mas farei uma simples analogia, não um tratado ponto-a-ponto da coisa. Sigamos]

Ora, o que é a caminhada na vida cristã além de uma metáfora metafísica desse surpreendente processo vegetal?

Vejo na jornada da fé cristã [aquela uma proposta pelo Jesus Nazareno] um processo semelhante. Se não é a fé cristã usar de dúvidas, questionamentos, incertezas, terríveis vagos nas páginas do nosso manual da vida para, junto com a luz vinda do Filho do Homem, junto com a água que mata toda a sede, se não é a fé cristã usar tais dúvidas para gerar vida, e vida em abundância, o que mais seria?

Nisso, vejo um grave problema com a atual cultura, ou agricultura, evangélica. Se Jesus foi ao mundo, pisou em terra viva, tomou as dores nossas para si; ou seja, se Jesus nos faz a fotossíntese necessária para vivermos, como rejeitar esse processo? Ou pior, como propor um simulacro substitutivo?

Voltemos às analogias. Já ouviu falar em agricultura hidropônica, ou hidroponia? É um simulacro científico da agricultura em terra, é um experimento científico, controlado e metódico que pretende gerar vida em ambiente esterilizado, livre de germes, bactérias e outros micro-organismos da mesma monta. Pior, é agricultura sem chão, sem terra, sem minhocas e cheiro de mato. É uma coisa estéril, fria, repetitiva, com alfaces de folhas iguais, com tomates todos redondinhos, meigos e de coloração, com moranguinhos docinhos e limpinhos.

Já comeu um tomate hidropônico? Vá à papelaria mais próxima e morda uma farta placa de isopor. O gosto será o mesmo, acredite. A tal agricultura hidropônica cria vegetais de granja, numa metáfora fácil. É um simulacro, é uma reprodução fajuta de algo vivo, bom e agradável.

O que nos leva ao final da metáfora: estão fazendo o mesmo com a fé cristã nas igrejas evangélicas brasileiras. Em vez de uma fotossíntese completa, propõem um evangelho igualmente estéril, sem chão, sem terra, sem húmus; um evangelho limpinho e bonitinho, boas novas de reality show, com um monte de regras e um ser que tudo vê destemperado e louco para, ao menor deslize, nos eliminar da casa e nos mandar ao inferno dos desviados e rebeldes.

Os evangélicos morrem de medo de se contaminar de mundo, de chão, de terra. Querem ser sal diet, que não aumenta a pressão, mas também não salga, não conserva, não afasta a podridão; querem ser luz halogênica, que não de desgasta, não consome energia, mas, em compensação, não arde, não queima, não aquece, não incomoda.

Vivem os evangélicos hoje de máscaras [com todos os trocadilhos possíveis], vivem de luvas cirúrgicas e germicidas, álcool gel e antibióticos enquanto, de agricultores da vida, se tornam cientistas do cultivo suspenso, da cultura esterilizada, da agricultura hidropônica.

Ah, mas é o fim dos vermes, das larvas, das doenças e pragas na lavoura. É o fim do joio misturado ao trigo. Não, não é. Ou melhor, é. Mas, tirando as intempéries, os percalços, os ataques, tiram a força, a resistência, o crescimento vigoroso. Hoje, as igrejas evangélicas geram tomates bobões, babões e bundões. Geram abobrinhas, alfaces sem gosto, frutos sem sabor. Geram um simulacro e, pior, geram em pouca monta simulacros a custa de tempo, esforços e recursos suficientes para grandes lavouras naturais, para verdadeiros alimentos serem produzidos, vivos, sadios e saborosos.

Por fim, sinto pena de ver tanta gente cultivando feijões em algodão e crendo que são ceifeiros, mais pena sinto dos frágeis brotos estéreis, sem vida, sem chão, sem história, sem caminhada. São frutos em estufas, em bolhas de contenção, em redomas de vidro sem contato com nada e sem chance de crescer e se multiplicar. Esqueceram-se das palavras do Rabi: O reino dos céus é semelhante ao homem que semeia a boa semente no seu campo (Mateus 13.24).

[texto dedicado a Ricardo Gondim, cujos livros e textos com cheiro de terra e chuva me encheram de dúvidas, tiraram todas as minhas certezas e me levaram a uma fé cristã cristalina]

19 Responses para “A fotossíntese da fé e o estranho evangelho hidropônico gospel”

  1. Com certeza é de emocionar… Principalmente depois da palavra de hoje 22/05/11 trazida pela manhã pelo Pr. Ricardo Gondim, esse texto soa como a água de um rio onde é tão transparente que é possível ver os menores detalhes no fundo. Que Deus os abençoe

  2. É isso mesmo e muito mais. A igreja está nos tirando a capacidade de pensar, ter opiniões próprias e pior que tudo, conhecer o amor de Cristo como ele realmente é. Estou me libertando da igreja evangélica. Descobri que amar a Jesus é amar o outro, mesmo que ele não queira nada com Deus.
    O que estão fazendo com o Pr. Ricardo Gondim é vergonhoso. Mas é isso mesmo, os “agricultores da terra” não tem espaço nas estufas. E graças a Deus por isso! Amei o texto. Parabéns!

  3. Sou MUITO fã do Pr. Ricardo Gondim. Sinto alegria dele ser cearense. Diz pra ele que tô mandando um grande abraço e que amei a entrevista dele na revista “Carta Capital”. Muito corajosa. Um abraço pra você também.

  4. gostei do texto, sinto que uma nova visão do cristianismo surge. isso é ótimo. ricárdo gondim, é uma cabeça pensante, isso é muito bom.

  5. Concordo que uma hermenêutica bíblica unívoca é estranha ao chamado à vivência cristã que molda nossa resposta às questões práticas da vida.

    Não devemos ter medo de questionar, da mesma forma que não devemos ter medo de admitir que às vezes fazemos questões bobas, do tipo intelectualóide, chocantes e que isso não leva a nada, nem melhora o mundo. Quebrar maus paradigmas é fundamental e necessário senão a Igreja vira tirania cega e castrante. Mas os paradigmas mais coerentes devem ser preservados.

    Questionar apenas para querer ser “o cara” ao invés de apenas para louvar mais a Deus, tanto por Seu amor como por Sua justiça, preferindo um deus limitado por apenas parte de Seu Todo-Ser não lhe rende a devida grandeza.

    Não me lembro de ter lido Ricardo Gondim escrever para se exibir, para se apresentar como “o tal”, nem como o melhor teólogo. Tivesse feito isso ainda poderia estar sob holofotes.

    Verdade que alguns de seus conceitos e bandeiras que levanta chocam. Verdade que ele é inclusivo num nível que mexe com os estamentos que separam os santos dos réprobos. Talvez por não aceitar que alguém seja criado só pra ser inevitavelmente reprovado ao final. E isso choca o hipercalvinismo.

    Mas chocar sem ofender era o que Jesus fazia: Ele não permitia que o pecador fosse deixado em seus conceitos errados e em suas práticas biblicamente condenáveis, nem fazia uma releitura revogatória do que no AT era visto como pecado… Ao contrário Ele até aumentava umas cargas, que saiam do mero “fazer isso” para migrar a um “QUERER fazer isso”, MAS JESUS NÃO CONDENAVA SEM ANTES CALÇAR AS SANDÁLIAS DO PECADOR e de convidá-lo ao amor infinito que perdoa todos que se arrependem.

    O amor não faz vista grossa ao pecado mas transforma o pecador em santo. E transforma o já-crente de crítico a “distribuidor de Boas Novas”. Penso que Gondim queria ter podido ser esse agente usado pelo Agente da Transformação.

    Mas Gondim não está morto. Longe dos holofotes ainda poderá (melhor) atuar esse amor infinito e ainda poderá se recusar a ver no outro um inevitável condenado. E com a graça de Deus pode ser que ele jamais veja um eterno condenado em sua frente, mas apenas pessoas que ele amou e ajudou-as a descobrir o amor e o Amor!

    Então que viva ainda!

    Deus nos ame e abençoe!

  6. É isso, chegou a hora de ações como essa. Não concordo com tudo que o Gondim diga, mas ele foi batizado, pertence à família cristã e é muito feio brigar em família, como diria o E. Peterson. Ações cristãs de raiz.

    • É mais fácil contrariar. Acho que o Gondim abraçou algumas concepções teológicas que foram identificadas com correntes heterodoxas, mas pode ter havido erro mútuo: dos antagonistas de não se atentarem aos detalhes do discurso do Gondim e do Gondim nunca ter feito questão de explicitar seus pontos.

      Eu mesmo já vi nessa indiferença do Gondim uma suposta zombaria aos “menos inteligentes”, o que não vejo mais. Antes pensava que ele fazia da Bíblia um livro anacrônico que deveria se amoldar e obedecer as ideologias da atualidade e não teria prerrogativa de impor alguma doutrina de forma imodificada, conservadora e que via a Teologia como mera Filosofia que sempre questiona e teima em recusar as respostas oferecidas por serem “muito simples”. Não vejo mais assim.

      Há pontos que ele defende e que sou contrário mas nem por isso o veria como agente do diabo. Ele é cristão e como tal merece ser tratado.

  7. É muito verdade isso tudo, e é com pesar que lemos e concordamos que essas coisas acontecem como fato, na vida de muita gente.

    Só queria fazer uma ressalva que o que mais entristece, além da própria situação, é o sentimento de pena. Não deveríamos sentir pena, ninguém é vítima disso, todos caímos nesses jogos vez ou outra, e sentir pena é vitimizar e vitimizar é colocar o outro sobre tutela. Como se aquele a quem sentimos pena não pudesse pensar por si ou resolver a própria vida, sem querer caímos no jogo que tanto criticamos.

    Nossas práticas, seja qual for nossa profissão ou crença deve ser no sentido de gerar mais autonomia de vida. Potência de Vida como diria o Espinosa.

  8. Excelente texto e linda homenagem. Parabéns!

  9. Texto muito interessante e perspicaz. Conseguiu através de uma analogia insperada, mostrar com clareza o momento atual. Parabéns Tom, pela bela e inteligente homenagem. É importante neste momento reconhecermos o que o Ricardo já fez e produziu, antes de atacá-lo de modo simplista. Quem acompanha sua biografia, sabe de seu valor!

  10. Conheço e acompanho Gondim (encontros, congressos, eventos, ultimato, livros, etc…). O texto é belíssimo. Vou repassar o máximo possível. Faz lembrar o “crer é também pensar”, … Espero que o pastor e a Betesda consigam permanecer firmes apesar dessa família esquisita que temos, que aliena com facilidade quem Deus acolhe. Costumava mandar e-mails para Ultimato dizendo não entender como é que ela conseguia manter gente como Braulia, Robinson Cavalcanti e tantos outros que conhecemos escrevendo nela. Via como ousadia, temor ao Senhor e independência para continuar na “contra-mão” dos que se acham donos da verdade… a tal 4ª pessoa da trindade.

  11. Quem dera o cristianismo evangélico no Brasil desse mais atenção a reflexões dessa natureza. Adorei o texto, muito sensível e criativo!

  12. Tom,

    Parabéns pela homenagem ao pr. Ricardo.

    Sigamos no caminho de Cristo.

    Um abraço,

    Laion

  13. É um texto muito bonito, bem redigido, que faz refletir sobre nossa vida dentro da Igreja. Gera questionamentos, o que de fato é muito bom. Sim, acredito que pode abalar a fé(não ouso dizer precária, realmente tenho temor da Palavra que diz: “Quem pensa estar de pé, cuide para que não caia”) de muitos e fazê-los abandonar o Corpo de uma vez e se entregarem ao desejo a tanto acalentado de servirem a Cristo em casa.
    Eu, seguirei na minha caminhada anônima, desejando que Deus continue me conduzindo ao viciado, à prostituta, ao órfão, ao pobre de espírito, pregando o evangelho que liberta e salva, uma simples obreira, uma simples ovelha no meio de lobos, crendo que meu trabalho não é vão no Senhor.
    Que Deus nos leve de uma vez por todas ao centro de Sua Vontade.
    Deus lhe abençõe, Sr. Tom Fernandes, e derrame De Sua sabedoria, a do Espírito Santo, sobre sua vida.

  14. O pior é que desconfio que, dentro desse sistema evangélico hidropônico, todo bonitinho e limpinho, o que estão usando para irrigar as plantas, não é água com nutrientes, mas algum outro líquido venenoso… :P

  15. E eu que pensei que nunca me importaria pelos processos da fotossíntese. Muito bom texto. Deve ser porque é uma legítima defesa de um amigo.

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