Arquivo para agosto, 2011

13/08/2011

Pão e vinho – uma reflexão sobre a ceia cristã

por @tomfernandes

É famosa a cena pintada por Leonardo Da Vinci representando a Última Ceia, momento em que Jesus reparte pão e vinho com seus discípulos. Famosa e recriada à exaustão por artistas de todo o mundo. Famosa e banalizada por grande parte dos cristãos evangélicos. Afinal, que mistério há em comer um pedacinho de pão já cortadinho e tomar um cálice de suco de uva que nem dá um gole de verdade? Ainda mais com o fim do culto se aproximando, já pensando no que e com quem irá falar, o pensamento já focado na correria da segunda de manhã, no atropelo da semana que já começa a mil por hora.

Lembranças sempre vêm da primeira ceia, aquela tomada com lágrimas nos olhos, cabelos ainda molhados do batismo recém-acontecido. Semanas, meses de ansiedade até poder participar do “corpo e do sangue de Cristo“. Um choro baixinho de alegria e satisfação tomava conta daquele coração. Tão forte quanto vem a sensação dolorida da primeira ceia não tomada, quer seja por disciplina, quer seja por consciência pesada ou assunto não resolvido. Lábios trêmulos confessando que podia ter tratado melhor seus pais ou seu cônjuge, olhos marejados prometendo consertar tudo e nunca mais ficar sem atender ao convite do “vem cear, o mestre chama, vem cear”.

De repente, meses se passam, anos se vão, nem se lembra mais, um ritual, uma liturgia ensaiada sem emoção e a ceia já é um enfado mensal. Como dividir o pequeno naco de pão com as mesmas pessoas que há tempos se tornaram estranhas, distantes? Enquanto caminhava para casa após mais uma ceia, pensava nisso e propôs uma oração sem palavras. Queria voltar a sentir alegria em cear com Cristo. De seus lábios, um tácito amém era a única evidência de uma prece.

Mal entrara em casa, aconchegando-se no sofá para terminar a noite com um pouco de humor televisivo, a campainha toca. Uma mulher, cabelos grisalhos e rugas profundas, pedia uma refeição, um naco de pão. Pensa em negar, estava perdendo seu momento favorito do domingo, mas antevê uma dor na consciência e prepara um prato grande, com fartas porções do almoço em família. A senhora agradece, “Deus lhe dê em dobro”. Um amém descrente dispensa a senhora que desce a alameda rumo ao nada.

Na segunda, aguardava ansiosamente o almoço com o chefe; sabia que a sobremesa poderia ser a promoção tão bem cultivada, as respostas certas a trariam junto com a conta no restaurante caro, que pagaria com gosto ao seu chefe. Enquanto termina um relatório, vê a copeira ofegante, mãos trêmulas e corre para ampará-la. Apesar de ter sido só um susto, diagnosticado pelo médico no posto de saúde mais próximo para onde levou a colega de trabalho, seu coração apertado sentia ter perdido o almoço com o chefe enquanto dividia um prato feito no restaurante ao lado do posto de saúde com sua amiga copeira.

Durante toda a semana, seus planos de promoção com o chefe, de um encontro romântico, até de passar uma noite tranquila com um bom livro, todos seus planos frustrados, interrompidos ou abandonados por pessoas que precisaram de sua presença. No sábado, finalzinho da tarde, uma festa maravilhosa a caminho e o telefone novamente muda seus planos. Sua avó estava internada por causa da diabetes e lhe caberia o papel de acompanhante naquela noite. Enquanto a avó octogenária se alegrava em contar causos de sua adolescência, pelo celular, só notícias do festão que estava perdendo. Pela manhã, a matriarca da família insistiu em repartirem a refeição matinal do hospital.

Domingo à noite. Uma semana depois, estava de novo ao culto. O aniversário da denominação proporcionaria uma ceia extra ao mês. “Vem cear, o mestre chama…”, durante a canção ministrada pelo coral enquanto o mesmo pãozinho recortado e o copinho de pouca monta com suco de uva eram distribuídos, as cenas da semana lhe voltam à mente. Cada refeição dividida com amigos, cada ajuda dada a quem lhe procurou em hora e fora de hora, o abrir mão da promoção para socorrer a copeira no serviço, a noite em claro cuidando da avó. Em cada cena agora via a presença de Jesus. A ceia dividida naquela noite, salgada com lágrimas sinceras de alegria e satisfação, era apenas o que devia ser: a memória da presença de Cristo em sua vida durante toda a semana. Entendeu finalmente o que era a ceia, mais que um mero repartir de pão e vinho.

Texto escrito originalmente para a revista Seu mundo.

12/08/2011

Dez coisas que aprendi sobre Deus com os pastores da TV

por @tomfernandes

Já sou um tanto antigo nessa coisa de TV e ano que vem completo a maioridade etária nessa coisa de religião. Sou de um tempo em que as manhãs de sábado tinham Jimmy Swagartt na antiga TV Bandeirantes (Band vem daí, novinhos) e Caio Fábio aparecia vez ou outra na Globo (sonho de consumo e masturbação egoica do Silas atualmente). Vi os primeiros programas do Edir ainda cabeludo e tenho até saudades do tempo em que o Malafaia usava bigode.

De lá pra cá, adultérios e escândalos à parte, muita coisa mudou. O que era pouco se acabou… Opa, música errada. O que era doce azedou. A Band hoje tem dúzias de pastores em sua programação, a Globo resolveu não se misturar mais com essa gentalha, a Record foi comprada pela veterotestamentária IURD e, como grana pouca é esmola, vieram a Record News e várias estações de rádio. Por falar em gentalha, o SBT continua firme e forte (tá, nem tão firme assim), resistindo à investida dos milhões feitos de tostões.

Bom, mas não é esse o mote aqui. Quero compartilhar dez coisas que aprendi ao longo dos anos sobre Deus com os pastores televisivos. Vamos lá:

1.       Deus é bipolar

Pra não dizer esquizofrênico, digo que aprendi que Deus é bipolar. Afinal, cada um dos quinze tele-evangelistas (os que consegui me lembrar enquanto escrevo) diz que Deus é, pensa e age de um jeito diferente. Uma hora Deus é amoroso e perdoador, na mesma hora, mas em canal diferente, Deus é irado e pronto a nos destruir com requintes de crueldade. Um diz que ele só quer o coração, outro diz que “é tudo ou nada”, ou melhor, com Deus “ou dá ou desce”. Como sei que nenhum deles mente ou fala do que não conhece, a conclusão óbvia é que todos estão certos e, portanto, Deus é, digamos, bipolar. Isso sem contar no discurso dúbio de “graça e alegria” pro pecador e “choro e ranger de dentes” pro já converso.

2.       Jesus é masoquista

Juro que já ouvi “Jesus exultou de alegria naquela cruz” e “Jesus ansiava pela crucificação”. Até entendo o que Max Lucado diz quando fala que “Ele escolheu os cravos”, mas a quantidade de descrições adjetivadas e minuciosas sobre os sofrimentos de Jesus me dão a certeza de que os pastores acreditam que Jesus gostava de sofrer.

3.       Deus já foi de direita, hoje é de esquerda

Na verdade, o que tenho visto ao longo dos anos é que Deus é governista, sempre, de forma irrevogável (oi, Mercadante). Os pastores dizem que devemos orar pelas autoridades (o que é bíblico), mas o que mostram é que Deus gosta mesmo é de um poderzinho temporal. Poucas vezes vi um pastor televisivo reclamando do desmazelo e ineficiência dos governos. Antes, mostram sempre seus melhores ângulos quando suas igrejas são visitadas pelos políticos. Será que rola um cabide de empregos celestial? Acho que sim, pois em toda denominação televisionada, Deus tem seus candidatos escolhidos e maldições prontas pros rebeldes que ousarem desafiar a lei do “irmão vota em irmão”.

4.       Deus não inventou as borboletas

Coitadas, criaturas infernais, crias de Belzebu. Sim, numa dessas matinês vi um pastor explicando como a Nova Era estava usando a Disney para nos encher de mensagens subliminares (que de tão óbvias penso serem sublinhadas) e nos enfeitiçar. Prova de que os desenhos animados trazem a mensagem do capiroto? Sempre há uma borboleta voando quando o personagem corre perigo. Tadinho do Bambi, que além de órfão virou um ser possesso por uma pomba-gira. E o Corujito? Então, não se esqueçam: borboletas são bichinhos do mal.

5.       Deus gosta duma muvuca

Deus é um cara popular, digo mais, popularesco. O Céu deve parecer o Programa do Ratinho nos velhos tempos. A julgar pelos cultos transmitidos, em especial os de extors…, digo, exorcismo, Deus não gosta daquela coisa certinha, ordeira e calma. O pau quebra e o barraco treme quando Deus está presente, foi o que aprendi com a pastorada da TV. Desde os tempos de Davi Miranda que sabemos que o barulho é porque Deus está operando (e sem anestesia).

6.       Deus é surdo

Seria essa uma redundância com o item acima? Acho que não. Mas deixe-me corrigir: Deus é deficiente auditivo (em tempos de politicamente correto, sabe como é, né?). Ocorre que aprendi ao longo de quase duas décadas que é preciso falar alto, repetir mais alto e, por último gritar com Deus para que ele ouça nossos pedidos. Sempre que ouvir a deixa “com mais fé, irmão” é porque naquele dia a coisa tá difícil de chegar aos ouvidos divinos. Encha os pulmões e tente a sorte.

7.       Deus é chantagista

Triste constatação. Mas não tem jeito. Aprendi muito bem explicadinho que Deus dá piti, toma presentes, fica de mal, emburra e, às vezes, até promete ir embora e levar a família com ele, nos deixando na sarjeta da solidão, na rua da amargura, na porta do inferno abraçados com o capeta. Tudo isso se não cumprirmos cada um dos caprichos divinos que os pastores gente fina fizeram o favor de catalogar e nos repassar pra não ficarmos mal na fita com o Poderoso. Coisa parecida com as avós que dizem horrores se não formos todo domingo almoçar na casa delas.

8.       Deus tem problemas em manter sua santidade

Das coisas que aprendi com a pastorada da TV, talvez essa seja a que mais me confundiu de início. Segundo vi e ouvi em anos de programação evangélica, Deus é santo, muito santo, santíssimo. Ok, é bíblico. Até Jesus confirmou isso. Mas essa santidade toda dá um trabalhão. É uma mania de limpeza sem fim. É coisa de limpar as vestes toda semana, a preocupação dos pastores em lavar os pés do povo da igreja em água com colônia de rosas, em vestir um manto sagrado, em se enxugar numa toalhinha abençoada, até em por uma touquinha na cabeça já falam. É como se santidade fosse saúde, mas pra se manter saudável, Deus não permitisse que chegássemos perto antes de tirar todos os germes da roupa, da pele e dos sapatos.

9.       Deus gosta mais dos caçulas

Diz Jesus que Deus é pai, mas os pastores me ensinaram a verdade: Deus é avô. E tem predileção pelos caçulas, pelos novinhos (sem menção à pedofilia aqui, faça o favor). Ocorre que Deus vai perdendo a graça com os assuntos mais antigos, dos pastores e cristãos mais velhos. Deus gosta é de novidades, dos assuntos do momento. Pra que hinos e canções, se a onda agora é louvorzão e baladas gospel? “Deus é jovem” ouvi uma bispa dizer antes de ser presa com dólares na ca…pa da Bíblia. “Deus é dez”, “Deus é da hora”, “Deus é irado” (se bem que faz sentido se lembrarmos que Deus é bipolar) são coisas que aprendi vendo os programas televisivos mais animadinhos. Sem contar que Deus agora tá numa onda de grupinhos que precisa ver. No meu tempo, era panelinha, mas tudo bem.

10.   Deus gosta mesmo é da minha grana

Por fim, algo que me decepcionou em Deus, mas que agradeço aos pastores da TV pela sinceridade com que tratam o assunto: Deus é interesseiro. Lendo sobre Jesus no Novo Testamento, cheguei a ter uma primeira impressão legal de Deus sobre esse aspecto. Mas logo os pastores me contaram a verdade. Se eu quiser alguma coisa com Deus, o jeito mais fácil é molhar a mão do ser divino. Tenho minhas dúvidas agora com o lance de “dono do ouro e da prata”, mas vá saber. Sei que pastor não mente, portanto a coisa a se fazer para conseguir algo de Deus é pagar. Há pastores mais modestos que operam nos 10% regulamentares, mas há alguns que por um pouco (ou muito) a mais conseguem agilizar a bênção. Há taxas específicas, como os R$ 900,00 para a casa própria ou os 30% pra Deus abrir as portas. Mas algumas regalias e favores divinos só funcionam na base do tudo ou nada. Esteja (com o talão de cheques) preparado.

Não sei bem o que fazer com tudo isso que aprendi sobre Deus com os pastores da TV. Alguma dica?

10/08/2011

Hereges devem arder no fogo do inferno

por @tomfernandes

“As pessoas que me dizem que eu vou para o inferno e que elas vão para o céu de certa forma me deixam feliz por não estarmos indo para o mesmo lugar.” Martin Terman

Eu disse recentemente no twitter que boatos e beatos têm a mesma raiz pretensiosa: tomar conta da vida dos outros. As manifestações de espanto e uma ou outra reclamação já fazem parte do meu mister. Foi-se o tempo em que sentia culpa e a complicada sensação de incompreensão pairava como um fantasminha camarada na minha jornada. Cansei de tentar ser compreendido por quem tem medo de compreender e, compreendendo, ser forçado a tomar uma atitude para além, para longe, para um pulo no desfiladeiro do egoísmo para a liberdade do próximo.

Celebrei ontem e hoje a atitude carinhosa de uma vizinha no prédio novo para onde nos mudamos. Ela, solidária ao nosso cansaço e desespero com a bagunça dos móveis e 114 caixas (sim, eu contei), nos trouxe café fresco e bolachas. E nos animou, dizendo que tudo ia acabar bem e aquelas coisas que gentis vizinhas sexagenárias dizem. Até aí, tudo bem. O problema começou quando contei que a vizinha é espírita. E tomou proporções enormes quando disse que ela trouxe um pouco do reino de Deus para nós naquele momento.

De perguntas vagas a conselhos sobre ir devagar, de gente me pedindo pra definir reino de Deus a gente me pedindo cuidado para “minha revolta neoreformista não sobressair à graça” (Entendeu? Não? Nem eu), de mensagens dizendo que concordam com tudo o que falo, mas tenho que ter cuidado para não ofender a mensagens tentando me ensinar a diferença entre atos de amor e reino de Deus. De tudo isso um pouco eu li durante a manhã. E justo porque comentei da alegria de receber um café fresquinho num momento tumultuado de mudança de casa. Ok, também comentei que outra senhora, dessa vez evangélica veterotestamentária, apenas perguntou se tínhamos cachorro e se nosso filho ainda chorava como bebê (e eu com o bebê no colo).

Tentei argumentar, até citei Søren Kierkegard dizendo que “a questão é simples. A Bíblia é muito fácil de entender. Mas nós cristãos somos um bando de vigaristas trapaceiros”. Também lembrei que o próprio Søren, protestante de primeira grandeza, disse:

Aqui jaz o verdadeiro lugar da erudição cristã. A erudição cristã é a prodigiosa invenção da igreja para defender-se da Bíblia; para assegurar que continuemos sendo bons cristãos sem que a Bíblia chegue perto demais. Ah, erudição sem preço! O que seria de nós sem você? Terrível coisa é cair nas mãos do Deus vivo. De fato, já é coisa terrível estar sozinho com o Novo Testamento.

Mas que nada, se digo alto que a teologia evangélica, além de pecado, produz seres imbecis, repetidores de visões políticas e sociais de outros interesses que não cristãos sei que vou receber pedradas dos evangélicos paulinos. Se digo que me confesso agnóstico, sabedor que não posso dar provas cabais da existência de Deus (mas mesmo assim me mantenho crente, pois ter o tète-a-tète com Deus foi coisa minha, não de ninguém mais e eu sei em quem tenho crido), sinto um leve cheiro de butano invadir o lugar e ouço caixinhas nervosas preparadas para riscar palitinhos flamejantes. Se me reconcilio com católicos e digo que não entendo o mistério dos “santos” a que a Bíblia se refere, um forte zunido de passos em minha direção me assusta um pouco.

Ainda me doem as orelhas as ofensas que ouço por dizer que há vários erros de tradução e interpretação no texto canônico e que cada frase deve ser estudada e entendida por completo e não usada literalmente. Meu pescoço ainda tem as marcas da corda do enforcamento (do qual escapei por pouco) ao defender os direitos civis de homossexuais, tais como casamento e adoção de crianças). Nem reclamo mais das bolhas nas mãos, já que é esporte meu colocá-las no fogo por amigos e irmãos que ousam pensar e viver diferente do que prescreve a frígida norma. Cada ferida dessas é santa, é bem-vinda e me impulsiona na certeza de estar no caminho certo.

Agora, me vejo num beco sem saída. Querem que eu renegue a alegria que uma gentil vizinha, sexagenária e espírita, me proporcionou apenas porque, na teologia evangélica, ela está condenada, assim como nos tempos do Rabi, estavam condenados pecadores, cobradores de impostos, samaritanos e prostitutas. Fazer o quê? Eu não renego (além de tudo, é uma delícia o café da Dona Maria). Mas estão certo os que agora se afastam com medo da fogueira que cresce à minha volta. Afinal, dizem em sua epistemologia que os hereges devem arder no fogo do inferno.

 

4 de janeiro de 2012 – Update mais que necessário: A Dona Maria Lavalle, personagem deste texto, faleceu ontem de complicações cardíacas. A família a sepultou hoje pela manhã. Que Deus a tenha em bom lugar!

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