Arquivo para janeiro, 2012

19/01/2012

convém que eu diminua…

por @tomfernandes

Convém que eu diminua, assim disse João, o primo ilustre e, na época, mais bem-sucedido de Jesus.

Convém que eu diminua, assim tem me alertado o Rogério, gastrônomo favorito e terapeuta nas manhãs vagas de sábado.

Convém que eu diminua, assim tem me ensinado a Thais Godinho em suas anotações sobre Vida organizada.

Convém que eu diminua, assim percebi ao ver o leioute do blog da Frida.

Convém que eu diminua, me alerta o Weuller me incentivando a vender caixas e caixas de quinquilharias eletrônicas.

Convém que eu diminua, penso eu e joguei fora caixas e caixas de CDs antigos, com programas antigos, versões desatualizadas e arquivos já finalizados.

Convém que eu diminua, penso olhando a pessoa a me encarar no espelho.

Pois bem, mudei o leioute do blog, pois é o texto que deve ser lido, não todos aqueles detalhes que imitavam uma pasta de arquivo.

Muitas outras mudanças estão rolando para que eu possa diminuir e assim me tornar melhor.

Quem sabe até consiga cumprir o compromisso de escrever diariamente aqui.

Oremos.

11/01/2012

O discípulo do Majestoso Hagin

por @tomfernandes

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Juro. Não era nada disso que eu imaginava pequeno fã calças-curtas do Majestoso Hagin. Com meu saquinho de pipocas numa mão e o algodão-doce na outra, vê-lo desafiando as mais poderosas feras do reino animal me dava a alegria de uma semana inteira. Era impressionante vê-lo domar feras sanguinárias, todas ávidas para destroçá-los. Leões enormes, tigres gigantescos, leopardos africanos imensuráveis. E lá ele, no meio da jaula, nenhuma proteção, apenas seu olhar expressando autoridade recebida de uma longa linhagem de domadores. O Majestoso Hagin foi meu primeiro ídolo na infância vivida no Gran Circo Precário!

Hoje, pessoa atrás do Chevrolet que sou, as noites de domingo consomem-me a semana inteira em dores e pesadelos. Dirijo evitando os buracos das vicinais e fugindo de minha sina falseada. No reboque, trago presas à alma as feras que dizia dominar, mas me aprisionavam. Só a extrema desilusão me olha fixo pelo espelho interno do Chevrolet. O ronco do motor me agonia a alma com a lembrança dos rugidos das feras enjauladas no circo da minha infância. O mormaço da tarde quente me recende o bafejar leonino no meu rosto. Sofro as lembranças como fossem patadas dos animais.

A moça no rádio anuncia um grande sucesso do passado, do meu passado, uma balada animada que durante muito tempo serviu de trilha para minha apresentação no Gran Circo Precário. Sim, um dia eu sucedi o Majestoso Hagin no espetáculo com as feras. Um dia foi meu o brilho nos olhos diante do público a quem eu brindava com a expectativa diária do enfrentamento com o selvagem. Sim, um dia fui eu o poderoso domador, o grande sujeito destemido que dominava a jaula no centro do picadeiro, diante de um público extasiado com minha autoridade diante de bestas feras terríveis.

Um carro me ultrapassa veloz. A trepidação me assusta, assim como me assustava a presença das feras em suas jaulas o fundo do circo. No carro que rompe um jovem com sua meiga namorada ouvindo som alto. Nas lembranças que guardo, a desilusão esparramada em cacos ao descobrir numa manhã de treinos a impotência daqueles animais. O Majestoso Hagin sem suas botas de salto era pouco maior do que eu. Sentados, lado a lado, ele me contou finalmente os segredos de como aqueles animais se submetiam a ele com a meiguice de bichanos na primeira pelugem. Perdi a fé ali.

Ainda tentei argumentar. Em algum circo haveria de ser diferente. Sim, me disse o já velho e não tão majestoso Hagin, dizem que houve um a quem as bestas feras respeitavam sem truques, mas já faz tempo demais. Todos que vivem e trabalham debaixo do picadeiro sabem que presas e garras já não existem dentro das jaulas. Ainda filhotes são desdentados, desgarrados, amputados. Aprendem a rugir como se fossem ferozes para garantir mais alimento e aprendem os truques para não sofrer desconforto e tortura. Olho no espelho do Chevrolet e me dói ver no espelho a caricatura de um domador.

10/01/2012

Hoje não tem

por @tomfernandes

Tô com…

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09/01/2012

Michel Teló, melhor não tê-lo?

por @tomfernandes

O brasileiro é fã duma repressão. Diria que é tarado numa ditadura, mas o trocadilho é fácil e a patrulha começaria logo nas primeiras linhas. Mas vá lá, eu nasci em 1976, em plena ditadura. Vi de perto em Goiânia todo o florescer do movimento Diretas Já e o escarcéu todo que se formou e se avoluma até hoje. Pois bem, nada disso parece ter resolvido nosso problema com a liberdade alheia. Somos taradinhos em vigiar a vida da janela ao lado. Em vigiar só não, em vigiar e dizer que não presta, que é feio e que devia morrer!

Somos também especialistas numa terrível arte: a autossabotagem. Enquanto as editoras enchem o cofrinho de tanto vender livros de autoajuda, com receitas mágicas para melhorar nossa autoestima, nós rasgamos o outro cofrinho em surtos de autodesprezo. Tudo o que fazemos deve necessariamente ser pior do que alguém em algum lugar do mundo em alguma época da humanidade faria. A gente gosta é de ser ruim, de não prestar, de não conseguir. A gente é tão ruim que o bom só acontece quando falhamos em ser ruim. O carro, a roupa, a literatura, a música, a teologia, tudo aqui é ruim.

Aí me chega aos ouvidos um melô, uma música bobinha, despretensiosa, feita para divertir, cantada por um cara loirinho, bonitinho, arrumadinho que tem um sorriso de quem está muito de bem com a vida. Com urgência máxima, nossas novas levas de patrulheiros formados nos DOI-CODIs culturais e sociológicos soltam o alarme: um meliante intelectual está à solta. Atirem primeiro e perguntem depois. Não é MPB! A letra é pobre! O arranjo é fraco! O cabelo dele é oxigenado! Ele nem é baiano pra fazer música chiclete! O franco atirador vem e diz: É um produto da indústria fonográfica capitalista!

Tenho que confessar, com risco de ser cúmplice do meliante e preso junto: me divirto com Michel Teló. Assim como me divertia com o “bom xibom xibom bom bom” e até hoje me controlo pra não cantarolar sempre que alguém pergunta “tá com sede”? Mas somos um país tão carente de ser sério, tão necessitado de ser adulto, de vestir calças compridas e comer com garfo na mesa que qualquer sinal de galhofa é reprimido. O que Michel Teló faz com “Ai, se te pego” é o mesmo que o filho faz com uma colher de sopa quente: ruído engraçado.

Você não gosta do Michel Teló? Problema meu, com certeza, que não me escondo dos risos provocados pelo meu filho de quase dois anos tirando a chupeta pra cantar “ai xitipego”. Mas não me é permitido, compreendo, ouvir Rossini numa noite e Teló no dia seguinte. Pega mal para inteligentes e cultos admitir que não vivem de ouvir Caetano e Gadú. No máximo, fazem aquela blague blasé: Quem é Michel Teló? Como se o desprezo ao popular o tornasse melhor pessoa. Aos censores dele fica o inevitável conselho de Chico Buarque: “Você não gosta de mim, mas sua filha gosta!”

08/01/2012

Uma criança indígena não é yorkshire, mas merece sua atenção

por @tomfernandes

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Eu não tenho um yorkshire, nunca tive um cão de raça, com pedigree etc. Nunca tive um “pet”, como chamam agora estes pequenos animais de companhia que substituem pessoas em uma relação. Até entendo o apego da atual sociedade a seus bichinhos de estimação. É compreensível que pessoas desistam de casamentos que duram no máximo cinco anos para cuidar de cães e gatos que durem talvez o dobro. É compreensível que pessoas desistam de filhos e netos que crescem, se tornam adolescentes e não obedecem mais aos comandos. Melhor ter animais que castrados serão sempre crianças sem vontade ou escolha.

Eu não sou contra ONGs que cuidam de cães e gatos perdidos na cidade, embora ache que também devessem cuidar de ratos, gambás e pombos que também se reproduzem aos montes nos centros urbanos e sofrem com a falta de lares para abrigá-los e levá-los a petshops para vacinas, banhos e mimos. Sei que são menos capazes na tarefa de fingirem um relacionamento pessoal íntimo com uma pessoal adulta, mas são tão vulneráveis e vítimas do abandono humano nos grandes centros urbanos. “Adote um rato antes que a cobra da sua sogra o faça” parece um bom slogan.

Eu não sou contra campanhas nas redes sociais, embora tranque as portas e as janelas e me esconda debaixo da cama box toda vez que leio o que a turba de pessoas civilizadas, esclarecidas e ordeiras propõe fazer aos que maltratam animais. Eu apoio que existam campanhas para adoção de animais perdidos e rejeitados, muito embora hajam dúzias de denúncias sobre o “negócio da adoção de animais”. Abomino o que a enfermeira goiana fez com o pequeno e indefeso Yorkshire, assim como abomino o que milhares de madames fazem com seus cães, alguns deles tomando ansiolíticos e remédios para insônia.

Mas eu não sou um yorkshire, não sou nem mesmo um enorme fila brasileiro (dadas as proporções corpóreas e de temperamento)! Sou um ser humano, pertenço à mesma raça que você que agora lê este texto e é o nosso descaso com os males e mazelas desta mesma raça que me escandaliza. É ver gente empurrando para os guetos quem é diferente, quem é fora do padrão, quem é menos manipulável ou não aprende a mijar no jornal e a cagar na areia que me provoca horror e mostra o quão bárbaros somos. O gado tomou lugar dos seres humanos.

Uma criança indígena não é um yorkshire, mas também é um ser humano. Seu assassinato covarde e cruel, incinerada viva por madeireiros, foi no meio da floresta no fim do mundo? Foi, mas ela merecia mais atenção e indignação do que vimos até agora na mídia e nas redes sociais. Era uma criança da nossa espécie, mas não era loira nem sabia frases fofas para nos fazer rir no YouTube. Agora me diga: o que fazer para acabar com a violência contra crianças nas cidades e nos rincões? Castrar, vacinar e colocar em abrigos à espera de adoção resolveria tudo?