Tudo que quero na vida é ser palhaço
Por Tom Fernandes
Sim. Você me leu. Tudo o que quero na vida é ser palhaço. Não. Não estou dizendo isso porque me cansei de ‘ser feito de palhaço’. Não, nada disso. Não quero ser palhaço porque tudo o que acontece na política brasileira é enojante. Não quero ser palhaço porque grande parcela das notícias sobre a igreja cristã evangélica brasileira me deixa indignado. Muito menos quero ser palhaço pra compartilhar uma suposta unção do riso. Não. Nada disso.
Se quero ser palhaço profissional? Daqueles do nariz vermelho e pasta d’água na cara? Daqueles que soltam água pelos olhos e tomam tombos quixotescos? Daqueles que explodem e saem chamuscados, mas voltam limpinhos dois minutos depois? Não sei, mas talvez sim. Ou melhor, sim. Desses mesmos. Tudo o que quero na vida é ser palhaço.
Tudo bem, você é mesmo engraçadinho. Devia até ser da turma do Stand Up Comedy. Faltava você no CQC. Só mesmo o Tom pra ver graça numa situação dessas. Tom, conta aquela história do dia que o muro caiu quando você encostou nele? O Tom e suas tiradas…
Todas as frases acima não me motivaram a querer ser palhaço. São apenas um apanhado do que ouço e leio de amigos e familiares todos os dias. Até um certo tio, meu antagonista intelectual por afinidade, amor e carinho, salienta meu humor, segundo ele, de péssimo gosto (o que, pra mim, já é um elogio e tanto). De bonachão a parlapatão, todo adjetivo palhacístico já recebi. Mas não são os comentários dos que me cercam a minha motivação pra dizer que tudo o que quero na vida é ser palhaço.
Já assisti muito a George Savalla, saudoso Carequinha, ao magnífico Waldemar Seyssel, o Arrelia, ao Mazzaropi, aos bons tempos dos Saltimbancos Trapalhões. Já vi os palhaços do Circo Vostok e também do Circo Moscow. Por vídeos, vi os palhaços voadores do Cirque du Soleil. Sempre rio e choro com Chaplin. Já vi rapazes vestidos de palhaço vendendo balinhas no semáforo e dentro de ônibus, em troca de uns trocos. Já vi, e até usei, nariz de palhaço em manifestações estudantis. Vi por toda a infância o Bozo perguntando se eu estava feliz. Vi e aprendi muito com os famosos palhaços europeus. Sim, esses palhaços têm algo a ver com o fato de que tudo o que quero na vida é ser palhaço.
Mas nas palavras do palhaço Richard Righetti, o palhaço é o derrotado. Diz ele: “Se, no mundo do circo, entra o cara e joga os malabares; o palhaço é aquele que entra e não consegue jogar. O palhaço vem mostrar não suas habilidades, mas suas inabilidades. Ele mostra não o herói, o astro, mas revela o público, aquele que nada pode. Quem assiste, olha e pensa: ‘O palhaço sou eu’”. Por essa definição do Righetti, tudo o que mais quero na vida é ser palhaço.
Todavia, foi assistindo a apresentações e entrevistas de Avner, the Eccentric, que achei a idéia perfeita. Foi lendo sobre ele que me vi revelado. Diz Avner, em seus Princípios do Palhaço: “O palhaço entra no palco para fazer um trabalho, não para provocar risos. Se houver risos, eles serão interrupções com as quais deverá lidar”. Avner, em entrevista ao programa Starte, revela a paixão e a obstinação do palhaço pelo que acredita ser possível: um mundo melhor. Em sua suposta derrota, ele vence ao proclamar um mundo melhor.
E é isso que me chama, é isso que me atrai. É isso que me faz dizer que tudo o que quero na vida é ser palhaço.
A derrota do palhaço é minha razão de viver. A vergonha carregada nos ombros por ser diferente é a minha sina. A derrota do palhaço é a essência do Evangelho em que acredito. A derrota do palhaço é olhar os donos da religião, é olhar os donos do poder, é olhar o sistema, é olhar o mundo e se ver inábil. É ver o sucesso de tantos neste picadeiro e tropeçar nos desengonçados pés.
A vitória do palhaço aparece, segundos depois, ao ouvir, ao sentir a graça, seja na criança que ri inocente, seja no Deus que não se impressiona com os sincronismos dos malabares, com a coragem dos que domam leões (ou que rugem como leões), que não se espanta com flores e coelhos e lenços suados saídos das cartolas mágicas, mas que ri (creio eu, ri de rolar) ao ver o palhaço se estrebuchar de pernas pro ar. Deus se comove, se ri, se enamora da derrota do palhaço porque talvez (quem sabe) Ele mesmo veja a si no palhaço derrotado. Ele (talvez, quem sabe) vê a Seu filho, um dia também palhaço entre os “donos do circo de seu povo” e entre os romanos, donos da política do “pão e do circo”.
Quem, senão o palhaço, vai e se declara e diz que ama a quem lhe ofendeu há pouco com bofetadas escandalosas? Quem, senão o palhaço, tem condições de rir de si mesmo depois da tragédia pessoal. Ou, nas palavras do Millor, “é preciso muita falta de dignidade para ser um homem de bem”.
Se viver na contramão deste mundo é o caminho proposto por Cristo. Se dar a outra face à mão que esbofeteia é a atitude proposta. Se as irrequietas crianças são o exemplo máximo do que se espera do candidato ao reino. Se para os fracos, doentes e pobres são dadas as bem-aventuranças. Por fim, se tudo o que minha alma deseja é se achegar a Deus, se tudo o que quero é viver à imitação de Cristo, tudo o que posso querer nesta vida é ser palhaço.


