Juro. Não era nada disso que eu imaginava pequeno fã calças-curtas do Majestoso Hagin. Com meu saquinho de pipocas numa mão e o algodão-doce na outra, vê-lo desafiando as mais poderosas feras do reino animal me dava a alegria de uma semana inteira. Era impressionante vê-lo domar feras sanguinárias, todas ávidas para destroçá-los. Leões enormes, tigres gigantescos, leopardos africanos imensuráveis. E lá ele, no meio da jaula, nenhuma proteção, apenas seu olhar expressando autoridade recebida de uma longa linhagem de domadores. O Majestoso Hagin foi meu primeiro ídolo na infância vivida no Gran Circo Precário!
Hoje, pessoa atrás do Chevrolet que sou, as noites de domingo consomem-me a semana inteira em dores e pesadelos. Dirijo evitando os buracos das vicinais e fugindo de minha sina falseada. No reboque, trago presas à alma as feras que dizia dominar, mas me aprisionavam. Só a extrema desilusão me olha fixo pelo espelho interno do Chevrolet. O ronco do motor me agonia a alma com a lembrança dos rugidos das feras enjauladas no circo da minha infância. O mormaço da tarde quente me recende o bafejar leonino no meu rosto. Sofro as lembranças como fossem patadas dos animais.
A moça no rádio anuncia um grande sucesso do passado, do meu passado, uma balada animada que durante muito tempo serviu de trilha para minha apresentação no Gran Circo Precário. Sim, um dia eu sucedi o Majestoso Hagin no espetáculo com as feras. Um dia foi meu o brilho nos olhos diante do público a quem eu brindava com a expectativa diária do enfrentamento com o selvagem. Sim, um dia fui eu o poderoso domador, o grande sujeito destemido que dominava a jaula no centro do picadeiro, diante de um público extasiado com minha autoridade diante de bestas feras terríveis.
Um carro me ultrapassa veloz. A trepidação me assusta, assim como me assustava a presença das feras em suas jaulas o fundo do circo. No carro que rompe um jovem com sua meiga namorada ouvindo som alto. Nas lembranças que guardo, a desilusão esparramada em cacos ao descobrir numa manhã de treinos a impotência daqueles animais. O Majestoso Hagin sem suas botas de salto era pouco maior do que eu. Sentados, lado a lado, ele me contou finalmente os segredos de como aqueles animais se submetiam a ele com a meiguice de bichanos na primeira pelugem. Perdi a fé ali.
Ainda tentei argumentar. Em algum circo haveria de ser diferente. Sim, me disse o já velho e não tão majestoso Hagin, dizem que houve um a quem as bestas feras respeitavam sem truques, mas já faz tempo demais. Todos que vivem e trabalham debaixo do picadeiro sabem que presas e garras já não existem dentro das jaulas. Ainda filhotes são desdentados, desgarrados, amputados. Aprendem a rugir como se fossem ferozes para garantir mais alimento e aprendem os truques para não sofrer desconforto e tortura. Olho no espelho do Chevrolet e me dói ver no espelho a caricatura de um domador.







