Posts tagged ‘365 textos’

11/01/2012

O discípulo do Majestoso Hagin

por @tomfernandes

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Juro. Não era nada disso que eu imaginava pequeno fã calças-curtas do Majestoso Hagin. Com meu saquinho de pipocas numa mão e o algodão-doce na outra, vê-lo desafiando as mais poderosas feras do reino animal me dava a alegria de uma semana inteira. Era impressionante vê-lo domar feras sanguinárias, todas ávidas para destroçá-los. Leões enormes, tigres gigantescos, leopardos africanos imensuráveis. E lá ele, no meio da jaula, nenhuma proteção, apenas seu olhar expressando autoridade recebida de uma longa linhagem de domadores. O Majestoso Hagin foi meu primeiro ídolo na infância vivida no Gran Circo Precário!

Hoje, pessoa atrás do Chevrolet que sou, as noites de domingo consomem-me a semana inteira em dores e pesadelos. Dirijo evitando os buracos das vicinais e fugindo de minha sina falseada. No reboque, trago presas à alma as feras que dizia dominar, mas me aprisionavam. Só a extrema desilusão me olha fixo pelo espelho interno do Chevrolet. O ronco do motor me agonia a alma com a lembrança dos rugidos das feras enjauladas no circo da minha infância. O mormaço da tarde quente me recende o bafejar leonino no meu rosto. Sofro as lembranças como fossem patadas dos animais.

A moça no rádio anuncia um grande sucesso do passado, do meu passado, uma balada animada que durante muito tempo serviu de trilha para minha apresentação no Gran Circo Precário. Sim, um dia eu sucedi o Majestoso Hagin no espetáculo com as feras. Um dia foi meu o brilho nos olhos diante do público a quem eu brindava com a expectativa diária do enfrentamento com o selvagem. Sim, um dia fui eu o poderoso domador, o grande sujeito destemido que dominava a jaula no centro do picadeiro, diante de um público extasiado com minha autoridade diante de bestas feras terríveis.

Um carro me ultrapassa veloz. A trepidação me assusta, assim como me assustava a presença das feras em suas jaulas o fundo do circo. No carro que rompe um jovem com sua meiga namorada ouvindo som alto. Nas lembranças que guardo, a desilusão esparramada em cacos ao descobrir numa manhã de treinos a impotência daqueles animais. O Majestoso Hagin sem suas botas de salto era pouco maior do que eu. Sentados, lado a lado, ele me contou finalmente os segredos de como aqueles animais se submetiam a ele com a meiguice de bichanos na primeira pelugem. Perdi a fé ali.

Ainda tentei argumentar. Em algum circo haveria de ser diferente. Sim, me disse o já velho e não tão majestoso Hagin, dizem que houve um a quem as bestas feras respeitavam sem truques, mas já faz tempo demais. Todos que vivem e trabalham debaixo do picadeiro sabem que presas e garras já não existem dentro das jaulas. Ainda filhotes são desdentados, desgarrados, amputados. Aprendem a rugir como se fossem ferozes para garantir mais alimento e aprendem os truques para não sofrer desconforto e tortura. Olho no espelho do Chevrolet e me dói ver no espelho a caricatura de um domador.

09/01/2012

Michel Teló, melhor não tê-lo?

por @tomfernandes

O brasileiro é fã duma repressão. Diria que é tarado numa ditadura, mas o trocadilho é fácil e a patrulha começaria logo nas primeiras linhas. Mas vá lá, eu nasci em 1976, em plena ditadura. Vi de perto em Goiânia todo o florescer do movimento Diretas Já e o escarcéu todo que se formou e se avoluma até hoje. Pois bem, nada disso parece ter resolvido nosso problema com a liberdade alheia. Somos taradinhos em vigiar a vida da janela ao lado. Em vigiar só não, em vigiar e dizer que não presta, que é feio e que devia morrer!

Somos também especialistas numa terrível arte: a autossabotagem. Enquanto as editoras enchem o cofrinho de tanto vender livros de autoajuda, com receitas mágicas para melhorar nossa autoestima, nós rasgamos o outro cofrinho em surtos de autodesprezo. Tudo o que fazemos deve necessariamente ser pior do que alguém em algum lugar do mundo em alguma época da humanidade faria. A gente gosta é de ser ruim, de não prestar, de não conseguir. A gente é tão ruim que o bom só acontece quando falhamos em ser ruim. O carro, a roupa, a literatura, a música, a teologia, tudo aqui é ruim.

Aí me chega aos ouvidos um melô, uma música bobinha, despretensiosa, feita para divertir, cantada por um cara loirinho, bonitinho, arrumadinho que tem um sorriso de quem está muito de bem com a vida. Com urgência máxima, nossas novas levas de patrulheiros formados nos DOI-CODIs culturais e sociológicos soltam o alarme: um meliante intelectual está à solta. Atirem primeiro e perguntem depois. Não é MPB! A letra é pobre! O arranjo é fraco! O cabelo dele é oxigenado! Ele nem é baiano pra fazer música chiclete! O franco atirador vem e diz: É um produto da indústria fonográfica capitalista!

Tenho que confessar, com risco de ser cúmplice do meliante e preso junto: me divirto com Michel Teló. Assim como me divertia com o “bom xibom xibom bom bom” e até hoje me controlo pra não cantarolar sempre que alguém pergunta “tá com sede”? Mas somos um país tão carente de ser sério, tão necessitado de ser adulto, de vestir calças compridas e comer com garfo na mesa que qualquer sinal de galhofa é reprimido. O que Michel Teló faz com “Ai, se te pego” é o mesmo que o filho faz com uma colher de sopa quente: ruído engraçado.

Você não gosta do Michel Teló? Problema meu, com certeza, que não me escondo dos risos provocados pelo meu filho de quase dois anos tirando a chupeta pra cantar “ai xitipego”. Mas não me é permitido, compreendo, ouvir Rossini numa noite e Teló no dia seguinte. Pega mal para inteligentes e cultos admitir que não vivem de ouvir Caetano e Gadú. No máximo, fazem aquela blague blasé: Quem é Michel Teló? Como se o desprezo ao popular o tornasse melhor pessoa. Aos censores dele fica o inevitável conselho de Chico Buarque: “Você não gosta de mim, mas sua filha gosta!”

07/01/2012

Detestável público

por @tomfernandes

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Detesto a argumentação taxativa. Detesto o totalitário. Detesto o intransigente. Detesto o irreconciliável. Detesto o que abomina sem conhecer. Detesto o que repete velhos preconceitos mesmo após identificá-los. Detesto quem vive sempre do lado certo. Quem nunca quebra a regra. Quem nunca perde. Quem sempre alcança. Detesto os detestantes. Abomino os abominadores. Os que odeiam para justificar amores. São podres esses poderes, temporais e temporários. Tempestades que a tudo rasgam e dizem ser o mover do vento. Detesto os que sempre fazem sentido. Que sempre têm a solução. Que escrevem manuais de como ler o manual. Detesto, ponto final.

Mas não poupo nem a mim, que escrevo querendo favores. Que ponho palavras em ordem para que meu caos se disfarce um pouco. Que rabisco rimas pobres, mas não publico. Nem eu sou digno da dignidade que imponho. Somos tão sábios, todos, aos nossos próprios olhos. Somos tão melhores narrados por nossa ótica. Oniscientes, coerentes, decentes, clementes, bonzinhos e limpinhos. Límpidos de querosene, queimando sem se ver. Nem eu escapo das minhas armadilhas metafóricas. Tão fácil ser virtualmente bonzinho. Ser virtualmente social. Ser um pequeno deus com centenas de fieis em uma pequena capela sem endereço certo, longe e perto.

Escrevo querendo público. Este é meu picadeiro e o circo está sempre vazio. Escrevo num desespero constante que me disfarce a inconstância. O domador já se retirou. O dono do circo está em seu trailer. Sou apenas eu e este enorme picadeiro, plateia vazia e foco de luz a me cegar. Queria fosse a lua a me refletir, tão sol que sou. Este sou eu, querendo que os outros não sejam tão detestáveis com meus pés enormes no estrume dos pôneis. Que os acrobatas vivam sem rede mal me cabendo em pé. Denunciando o mágico com minhas cartas na manga.

Quero ser melhor palhaço do que todos. Quem sabe assim me doa menos o elástico a prender este nariz vermelho, símbolo máximo de uma porrada bem dada nas fuças do derrotado, metáfora máxima da embriaguez terrível dos que não sabem seu lugar. Quem sabe assim, ao tirar a máscara no fim de cada noite, eu não me sinta menos detestável, menos siamês dos que abomino, menos cúmplice dos que denuncio. Escrevo como quem encena seu ato de madrugada no picadeiro vazio por medo de que o público o reconheça. Covarde? Sim, covarde de que me vejam através de minhas palavras.

Como são detestáveis! Como são taxativos. Como são intransigentes. Todos se juntando num grande e indecifrável público, numa plateia que se faz um monstro. Voraz e feroz. Devoradora de palhaços iguais a mim. O público que me ama enquanto riem e nada mais é o mesmo que se aborrece ao perceber que já viu o truque que agora faço. E seus risos, suas respostas e comentários se minguam até que me vejam cair da torre de babel ou pôr minha cabeça novamente na boca do leão. Neste circo virtual, todos querem que o palhaço pegue fogo enquanto recita poesia barata.

07/01/2012

No confessionário

por @tomfernandes

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Olá, em que posso ajudá-la? Padre, eu preciso me confessar com o senhor. Sua santidade precisa me ouvir e me ajudar. O que eu fiz foi muito errado, eu sei, mas o senhor precisa entender que era ele ou eu. Eu não queria, seu padre, juro pela alma da minha santa mãezinha que eu não queria fazer aquilo, mas como eu disse: era ele ou eu. Mas eu tô arrependida de um tanto, se bem que eu fazia tudo de novo, seu padre, era só o infeliz vir pra perto de mim de novo com aquela conversa toda atravessada.

Minha filha, respira e preste atenção: eu não sou padre, sou pastor. Ah, é? Mas o senhor também é santo que nem padre, ? Pode ouvir minha confissão e me perdoar com Deus, né? Porque a coisa que mais tenho medo na vida é ir pro inferno. Eu vejo aqueles pastores na tv e sei que o diabo faz todo mundo ir pro inferno se não der dízimo, mas olha, eu tô dura agora, mas posso mandar fazer um bolo e trazer amanhã. O senhor gosta de bolo de que pastor? Mando trazer um bolo de chocolate muito bom mesmo.

Querida, escute. Gosto de bolo, mas não precisa… Ah, que bom, porque eu nem sabia mesmo quem mandar vir te trazer o tal bolo e a situação tá pela hora da morte, né? Mas, pastor, como o senhor pode ser santo como o padre se o senhor é casado? Todo mundo sabe que pecado é sexo, quer dizer que sexo é pecado. Mas tudo bem, tô tão aflita que nem sei o que fazer, até coroinha servia. Só não sei se tem perdão, mas tem que ter, né? Afinal, Deus é paixão! Tem até uma igreja com nome assim né?

Deus é amor, você quer dizer? Sim, Deus é amor, mas me diga … Isso, Deus é amor! Eu sabia que era um apelido que nem o do Lipe, meu namorado, sabe? Mas chamo o Lipe sempre de Amor e de Paixão, então acabo confundindo, né? Mas, pastor, vamos ao que interessa que eu ainda tenho que fazer malas e já tá tarde. Eu vim aqui pro senhor me confessar e rezar por mim pra Deus me perdoar e me guardar de todo mal que eu sei que vou enfrentar. Pede também pra Deus me proteger de toda eliminação contra mim?

Eliminação, minha filha? Mas o que você fez, afinal de contas? Então, padre, quer dizer, pastor, acontece que eu fui selecionada pro BBB e vou pro hotel hoje, mas aí o Lipe, meu namorado, disse que se eu fosse ele terminava tudo comigo. Aí não aguentei, fui embora, mas peguei o telefone dele e liguei pra mulher dele e contei tudo. Aí eu peguei minhas coisas e ia pra casa, mas passei aqui na porta e deu vontade de pedir pro senhor rezar por mim e me perdoar pra eu ir sem pecado e poder ganhar o prêmio. Né, pastor?

05/01/2012

Amante à moda antiga

por @tomfernandes

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“De que serve o amor? Para que serve o amor? A quem serve o amor? Do que se serve o amor? A lista de perguntas envolvendo ‘servir’ e ‘amor’ é infindável, mas necessária. Amar é talvez a única atividade humana que seja transcendente e transitória. E amar se faz sempre transitivo no exato sentido de dar ao outro sua boa vontade. Servir é, por sua vez, uma relação dual e ambígua, pois se o fraco serve ao forte, reafirma sua fraqueza; mas se o forte serve ao fraco, se iguala a ele, anulando sua força. O amor pode amar-se?

Penso que não. Posto que o Rabi nos ordenou amar ao próximo como a nós mesmos, encontramos aqui o princípio do amor: oferecer ao próximo a sobrevivência existencial por excelência, uma vez que só em nós existimos plenamente e, assim, amando damos ao outro a garantia de nossa própria existência. Quem ama oferece ao ser amado seu ar, seu fôlego, sua alma. Por isso, coisa descabida é amar objetos, desprovidos de alma que são. Amar um telefone, por esperto que seja, é dar a ele a importância tida per si a si. Ou pode o telefone sentir falta do amante?”

Terminava sempre assim a primeira aula de Carlos a seus alunos na universidade, falando de amor, de serviço e de objetos. Naquele fim de fevereiro chuvoso, perto do carnaval, guardava seus materiais alegre pela quantidade de aulas que daria no semestre, garantia de uma poupança para visitar os pais com tranquilidade no meio do ano. Era seu terceiro semestre como professor, o primeiro mais tranquilo; o primeiro sem as dores do doutorado, sem as complicações de ter de dividir quarto com estranhos em uma república. Gostava de olhar para a lousa preenchida com sua caligrafia, achava bela a arte depositada lá.

Teólogo de coração, filósofo de formação, padre de vocação, Carlos fazia sempre o Sinal da Cruz ao sair da sala ampla e envidraçada onde ministravas suas aulas. O credo recitado em latim caia bem ao seu timbre de voz. Os dedos finos, ágeis, sujos de giz se moviam rápido sobre a face e o tórax completando o ritual. Ainda nem completara trinta anos, mas todos os alunos o tratavam com reverência daquelas que não se vê mais em todo lugar. Sentia-se mesmo velho, gostava da sensação. Apreciava a distinção com que era tratado por alunos, colegas e até superiores.

Chegava antes do sol se pôr em seu novo apartamento, quase tão vazio e limpo quando de sua entrada. A cama fina e o colchão modesto, poucos cabides com camisas iguais e calças de tergal no quarto, os muitos livros nas estantes de metal e a velha mesa de bar com quatro cadeiras na sala, mais um filtro de água e uma cafeteira na cozinha dividiam todo o espaço com ele. Nada lhe era precioso lá. Precisava ir ver os pais no interior, cobrança da mãe, pensava sempre antes de dormir. O rosário tremulando em seus dedos ágeis até adormecer.