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22/08/2009

Mascates e princesas [um conto sobre um conto do Torga] [final]

por @tomfernandes

Era festa em toda parte. Todos eram irmãos e companheiros, menos quando Álvaro passava, fechavam os semblantes, viravam os rostos, seguravam as crianças. Assim foi que Carolina soube que ele saíra da vila. E foi atrás dele, a pé, não conseguira uma mula sequer.

Era madrugada quando Carolina exausta viu o jumento do Álvaro. Estava à porta da estalagem onde, há vinte anos, Vandinho cortara na raiz a vida do Álvaro. Correu até dentro e, nos primeiros raios de sol daquela manhã em que todos se diziam irmãos e fraternos, ela viu toda a solidão do mundo.

Álvaro pendia na vigota da loja, já sem vida, com a corda da carga ao pescoço. Na mão o pequeno bordado que Carolina lhe dera em seu casamento.

Só os cães da cidade deitavam vigília ao enforcado, tal Carolina predissera.

21/08/2009

Mascates e princesas [um conto sobre um conto do Torga] [parte 5]

por @tomfernandes

Álvaro chegara várias copadas atrasado. Carolina não reconhecia nele seu mascate amado. O confundia com um pesadelo. O álcool era tanto que ela o via esparso como um fantasma do passado. E o quis excomungar. Atirou-lhe a lâmina. – Pra me matar também como uma porca?

O golpe fora dado. E fez-se silêncio. Álvaro, que ainda falava, se calou, deixou de falar e olhou nos olhos enrugados de Carolina. Que falar? O golpe atingiu também a ela. Acordara de sua embriaguez, mas não sabia ao certo o que falar. Fechou os olhos pra respirar e quando os abriu, já pra pedir desculpas, o viu sair da zona. Ia pra casa com seu fantasma a abrir caminho mais uma vez.

O mascate passou a noite acordado. Sem bebida, sem comida, não festejou o nascimento do Cristo. Ouviu os sinos na vila. As badaladas trouxeram a lembrança das batidas do martelo no tribunal. Ouviu nítidas as passadas que dava até chegar em casa. A porta a cair lenta e repetidamente o fazia suar. E imaginava Carolina no lugar de Flávia. E via-se feliz, cheio de filhos, próspero.

Álvaaro amanheceu em cima do jumento, surrava o animal rumo ao cume das dunas. Não pensava o caminho. Pensava nada, na agonia lenta do animal a marchar praia acima. Carolina amanheceu a procurá-lo. Não tinha cavalo, burro que fosse. Chegou à casa do Álvaro e deu com tudo aberto. As velas, como acesas por toda a noite, queimavam apenas os tocos.

[continua]

20/08/2009

Mascates e princesas [um conto sobre um conto do Torga] [parte 4]

por @tomfernandes

Vinte anos passam no dobrar de uma página. E um dia voltou à vila. Mas ela não o queria. E quem o havia de querer? Se por certo ele soubesse antes.

Quis voltar a ser o que era. Meteu-se a negociar. Mas ninguém nisso se metia com ele. E ele não tinha por quem lutar. A companhia de Vandinho, agora reumático, fora substituída pelo fantasma de seu crime. De fato, o confirmador de sua antiga desgraça foi o único que lhe dera alguma prosa. Contou-lhe, além das mortes e dos casamentos, as proporções que o crime tomara. Era impossível! – Teimava o Álvaro – Essa história é com folga alguma maldade!

Mas não mentia o Vandinho. E se lembrou de Carolina. Gostava do jeito dela, mas a irmã era tão enfiada em assuntos fora de sua conta… Agora lhe fazia sentido, tudo lhe fazia sentido. Os risos, os fuxicos, as maldades. Pobre Carolina. – Pobre de mim.

Era mês de carnaval. Ficou pensativo por dias. Remontava as cenas, lembrava nitidamente de coisas que jamais lhe chamaram a atenção. Em dois ou três dias já amava Carolina, iria ter com ela. Ela iria entender. E o iria querer ainda. E Álvaro, após uma vida, ensaiava um sorriso.

Pensava tanto que nem se importava com o vazio de seus negócios. Pensava tanto que se esquecera que as pessoas mudam. Carolina não. Soube da volta do Álvaro ainda antes dele chegar à cidade. Os guardas da prisão comentavam na zona onde ela acabara por morar que o assassino da vila ia sair. E ela o esperou. O esperou por dias e por noites. Assim como o esperara por vinte anos.

Na noite de segunda-feira, foi ter com ela. Ela, que havia passado tantas noites acordadas a beber, não percebeu crescer dentro de si naqueles dias uma revolta. E revolta forjada na cachaça se torna ferro. E copo a copo o ferro deixou-se afiar. – Já se vão dias e ele não vem. Por certo ainda chora a outra, a puta. Dela, Carolina, nem se lembrava. Que vá aos cães!!! – Praguejou novamente. E a lâmina de seu ressentimento tanto se afiou que mataria com o olhar. E seu olhar o avistou ainda longe.

Veio arrumado. Ainda tinha cabelos, percebeu. Ele se sentou no balcão, de lado com ela lhe falou. Queria sua companhia. Não era velho, ainda podia se reerguer na vida. Que ela pensasse. Que ela o quisesse…

[Continua]

19/08/2009

Mascates e princesas [um conto sobre um conto do Torga] [parte 3]

por @tomfernandes

Carolina se prendia aos lençóis enquanto vomitava suas dores sobre o assoalho. Praguejava Flávia. Por que não morria? Por que Deus não desgraçava a vida dela como Flávia fizera consigo? Que morra, que morra como uma porca. E que morra Álvaro também, seu amor, seu ódio.

O sol ainda se demoraria a vir. Carolina ainda sofria suas chagas e Álvaro se põe de pé. Tem o coração podre. Fedem seus olhos. Podres, seus pensamentos caem aos chutes e aos chutes Álvaro ergue seus jumentos. Deixa Vandinho caído na palhoça. Rumou de volta à vila sem carga, sem encomenda. Vinha com o sangue a cegar os olhos. Cada passada abria o corte. Cada pedra pisada rasgava as idéias. Os olhos de tanto sangue não o deixavam chorar. O coração, a querer sair pela boca, lhe impede a fala. E assim cinco léguas fizeram crescer aquilo que sentia. Já na vila, poucos repararam em Álvaro chegar sem carga. Olho fixo na choupana onde devia estar dormindo Flávia. Ela mal teve tempo de se assustar com a porta estourando no chão. Mal puxou ar pra gritar se afogou em seu sangue, sangrada no pescoço como uma porca. Carolina acorda às sacudidas de sua irmã. Vera aos supetões lhe conta que Flávia estava morta. Morta pelo Álvaro. Como uma porca, Carolina! – Festeja a irmã. – Como uma porca!? – Repete Carolina, o coração com o espanto de quem tem as rezas atendidas. – Graças a Deus…

Carolina vê de longe o Álvaro na cadeia pública. O julgamento vem em seguida. Como fossem melhores que Álvaro e fizessem mais justiça do que ele fizera, o condenam.

Carolina soluça. Álvaro nem ergue os olhos. Sem Flávia, que lhe sobra viver onde quer que seja?

No início da noitinha, enquanto vai levado a cumprir os vinte anos dados pelo juiz, Álvaro vê Carolina ao longe e imagina quem seria hoje se a tivesse escolhido. Se tivesse ouvido Vera.

Vandinho foi até ele, em nome da vila, com dor da coisa feita. Imaginasse a desgraça a vir, calava a boca. – Viu-se no lugar dele e completou: – Mas veja que eu fazia o mesmo, sem tirar nem pôr.

Os pensamentos de Álvaro não o deixaram pesar as palavras de Vandinho, nem ver Carolina, agora na esquina, escondida na volta da praça, com uma lágrima órfã a molhar o canto do lábio.

Ninguém também a vira. Assim como também a vila esqueceu Álvaro. Só a cruz na porta, a lembrar a morta, trazia à memória dos mais antigos o caso passado ali.

Tornou-se lenda.

[continua]

18/08/2009

Mascates e princesas [um conto sobre um conto do Torga] [parte 2]

por @tomfernandes

Nessas alturas, o Álvaro encostava-se a ela, após o dia de lida sob o sol, e ela o repelia. Está gelado. Ele lhe dava razão. Raras vezes tinha as vontades da carne atendidas. E vivia à custa de fazê-la princesa.

Carolina de tanto chorar se perdera. Primeiro na mão de um. Daqui a pouco nos braços de tantos. Pois era de vadias que o Álvaro gostava, era de vadia que viveria. A vila logo soube da perdida e de seu algoz. Pobre Carolina, pobre Flávia. O destino lhes dera má sorte.

O Álvaro contava um único amigo, o Vandinho. Não sabia quando se deram amigos. Eram da mesma lida. Nas viagens que dormiam fora, bebiam e se confidenciavam. Vandinho, das várias moças que lhe encantavam e o desprezavam. O Álvaro se fazia feliz. Tinha sua Flávia, a bela dona de suas posses. É um besta – sussurrava Vandinho. Mas o Álvaro tinha gosto nela. E o amigo não ia pôr a cara pelo querer do outro. E fizeram silêncio, cada um por seus motivos.

De novo em casa, chegou-se à cama com desejo maior de Flávia. O desejo da fome veio com o desejo de abrigo. Mas, tão logo em chama se achegou a ela, teve com os burros n’água. Era tarde.

Dormiu. O desejo aplacou-se. Não pelo cansaço, mas pela inquieta corrosão que nunca experimentara. Foi pra lida. Quando saia pro estaleiro, viu Carolina chegar em casa. Dera pra essas coisas agora!, pensa enquanto canga os jumentos.

Comentou com Vandinho mais tarde a triste sina de Carolina. Bom que ele soube escolher. Mas se lembrou da noite anterior e da ferrugem a lhe comer a confiança e quis retomar a conversa de antes. O amigo fugia. Deixava apenas os rastros da conversa pra que, se Álvaro quisesse, viesse atrás.

– É melhor a gente não falar nisso. Mulheres e mulas…

Buscavam mantimentos longe, não escapariam de dormir na estalagem entre os caminhos. Álvaro não era dado a embebedar-se. Mas, pra afogar a dor no peito, deitaram tantas garrafas que em pouco se carregavam, um nos braços do outro. Era dia de ano do casamento do Álvaro.

Carolina, nessa mesma noite, se entregava bêbada a uns rapazes do litoral. Era puta, mas amava Álvaro. Os jovens voltaram pra cidade a comentar a triste sina de Carolina. Logo era uma lenda. Dessas que criam famas e monstros.

Os animais remordiam o pasto enquanto Vandinho, após tanta insistência, tantas juras do Álvaro, desafogava o contido em seu coração. O Álvaro calado, caído, só ouvia. – É corno!

– É corno, desgraça. Quer mesmo saber, aqui o tem. Quem é? É o Carlos, ora quem mais? Desde antes, era ele o preferido. Sempre fora puta, por que deixaria de ser? É, se quer saber, mais puta que Carolina, essa pelo menos…

A cachaça não deixava Álvaro ouvir mais nada. As palavras de Vandinho cortavam a alma, mas já não se doía. O torpor lhe confortava. Nada era verdade, nada era mentira. Era um pesadelo. Lutava agora contra as teias de sua mente. Seus pensamentos faziam elos com lembranças de Flávia. As senhoras caladas quando chegava, os homens sempre a se rirem por nada. Nesse transtorno de que não se livrava, acabou por dormir.

[continua]