Nessas alturas, o Álvaro encostava-se a ela, após o dia de lida sob o sol, e ela o repelia. Está gelado. Ele lhe dava razão. Raras vezes tinha as vontades da carne atendidas. E vivia à custa de fazê-la princesa.
Carolina de tanto chorar se perdera. Primeiro na mão de um. Daqui a pouco nos braços de tantos. Pois era de vadias que o Álvaro gostava, era de vadia que viveria. A vila logo soube da perdida e de seu algoz. Pobre Carolina, pobre Flávia. O destino lhes dera má sorte.
O Álvaro contava um único amigo, o Vandinho. Não sabia quando se deram amigos. Eram da mesma lida. Nas viagens que dormiam fora, bebiam e se confidenciavam. Vandinho, das várias moças que lhe encantavam e o desprezavam. O Álvaro se fazia feliz. Tinha sua Flávia, a bela dona de suas posses. É um besta – sussurrava Vandinho. Mas o Álvaro tinha gosto nela. E o amigo não ia pôr a cara pelo querer do outro. E fizeram silêncio, cada um por seus motivos.
De novo em casa, chegou-se à cama com desejo maior de Flávia. O desejo da fome veio com o desejo de abrigo. Mas, tão logo em chama se achegou a ela, teve com os burros n’água. Era tarde.
Dormiu. O desejo aplacou-se. Não pelo cansaço, mas pela inquieta corrosão que nunca experimentara. Foi pra lida. Quando saia pro estaleiro, viu Carolina chegar em casa. Dera pra essas coisas agora!, pensa enquanto canga os jumentos.
Comentou com Vandinho mais tarde a triste sina de Carolina. Bom que ele soube escolher. Mas se lembrou da noite anterior e da ferrugem a lhe comer a confiança e quis retomar a conversa de antes. O amigo fugia. Deixava apenas os rastros da conversa pra que, se Álvaro quisesse, viesse atrás.
– É melhor a gente não falar nisso. Mulheres e mulas…
Buscavam mantimentos longe, não escapariam de dormir na estalagem entre os caminhos. Álvaro não era dado a embebedar-se. Mas, pra afogar a dor no peito, deitaram tantas garrafas que em pouco se carregavam, um nos braços do outro. Era dia de ano do casamento do Álvaro.
Carolina, nessa mesma noite, se entregava bêbada a uns rapazes do litoral. Era puta, mas amava Álvaro. Os jovens voltaram pra cidade a comentar a triste sina de Carolina. Logo era uma lenda. Dessas que criam famas e monstros.
Os animais remordiam o pasto enquanto Vandinho, após tanta insistência, tantas juras do Álvaro, desafogava o contido em seu coração. O Álvaro calado, caído, só ouvia. – É corno!
– É corno, desgraça. Quer mesmo saber, aqui o tem. Quem é? É o Carlos, ora quem mais? Desde antes, era ele o preferido. Sempre fora puta, por que deixaria de ser? É, se quer saber, mais puta que Carolina, essa pelo menos…
A cachaça não deixava Álvaro ouvir mais nada. As palavras de Vandinho cortavam a alma, mas já não se doía. O torpor lhe confortava. Nada era verdade, nada era mentira. Era um pesadelo. Lutava agora contra as teias de sua mente. Seus pensamentos faziam elos com lembranças de Flávia. As senhoras caladas quando chegava, os homens sempre a se rirem por nada. Nesse transtorno de que não se livrava, acabou por dormir.
[continua]
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