Posts tagged ‘crítica’

09/01/2012

Michel Teló, melhor não tê-lo?

por @tomfernandes

O brasileiro é fã duma repressão. Diria que é tarado numa ditadura, mas o trocadilho é fácil e a patrulha começaria logo nas primeiras linhas. Mas vá lá, eu nasci em 1976, em plena ditadura. Vi de perto em Goiânia todo o florescer do movimento Diretas Já e o escarcéu todo que se formou e se avoluma até hoje. Pois bem, nada disso parece ter resolvido nosso problema com a liberdade alheia. Somos taradinhos em vigiar a vida da janela ao lado. Em vigiar só não, em vigiar e dizer que não presta, que é feio e que devia morrer!

Somos também especialistas numa terrível arte: a autossabotagem. Enquanto as editoras enchem o cofrinho de tanto vender livros de autoajuda, com receitas mágicas para melhorar nossa autoestima, nós rasgamos o outro cofrinho em surtos de autodesprezo. Tudo o que fazemos deve necessariamente ser pior do que alguém em algum lugar do mundo em alguma época da humanidade faria. A gente gosta é de ser ruim, de não prestar, de não conseguir. A gente é tão ruim que o bom só acontece quando falhamos em ser ruim. O carro, a roupa, a literatura, a música, a teologia, tudo aqui é ruim.

Aí me chega aos ouvidos um melô, uma música bobinha, despretensiosa, feita para divertir, cantada por um cara loirinho, bonitinho, arrumadinho que tem um sorriso de quem está muito de bem com a vida. Com urgência máxima, nossas novas levas de patrulheiros formados nos DOI-CODIs culturais e sociológicos soltam o alarme: um meliante intelectual está à solta. Atirem primeiro e perguntem depois. Não é MPB! A letra é pobre! O arranjo é fraco! O cabelo dele é oxigenado! Ele nem é baiano pra fazer música chiclete! O franco atirador vem e diz: É um produto da indústria fonográfica capitalista!

Tenho que confessar, com risco de ser cúmplice do meliante e preso junto: me divirto com Michel Teló. Assim como me divertia com o “bom xibom xibom bom bom” e até hoje me controlo pra não cantarolar sempre que alguém pergunta “tá com sede”? Mas somos um país tão carente de ser sério, tão necessitado de ser adulto, de vestir calças compridas e comer com garfo na mesa que qualquer sinal de galhofa é reprimido. O que Michel Teló faz com “Ai, se te pego” é o mesmo que o filho faz com uma colher de sopa quente: ruído engraçado.

Você não gosta do Michel Teló? Problema meu, com certeza, que não me escondo dos risos provocados pelo meu filho de quase dois anos tirando a chupeta pra cantar “ai xitipego”. Mas não me é permitido, compreendo, ouvir Rossini numa noite e Teló no dia seguinte. Pega mal para inteligentes e cultos admitir que não vivem de ouvir Caetano e Gadú. No máximo, fazem aquela blague blasé: Quem é Michel Teló? Como se o desprezo ao popular o tornasse melhor pessoa. Aos censores dele fica o inevitável conselho de Chico Buarque: “Você não gosta de mim, mas sua filha gosta!”

08/11/2011

Eu sou melhor do que todos vocês

por @tomfernandes

Li uns meses atrás um excelente artigo da jornalista Eliane Brum sobre o merecimento que a geração que hoje tem vinte e poucos anos julga ter de ser feliz, satisfeita e atendida em seus desejos, caprichos e vontades (aqui). Em seu artigo, ela constata que esta é a geração mais preparada (tecnicamente) e mais despreparada (vivencialmente) que nossa sociedade já produziu. São milhares, milhões de jovens despreparados pelo simples desprezo ao preparo, ao treino, ao empenho, ao sacrifício. São jovens que não fazem o necessário para alcançar seus objetivos apenas porque julgam já terem nascido com o merecimento a tê-los.

Cresci e tenho vivido cercado de espiritualidade, mais especificamente da cristã evangélica e tenho visto nos púlpitos, nos discursos e nas atitudes evangelicais a mesma certeza de que podem tudo e nada lhes pode ser negado apenas por serem parte de um determinado agrupamento religioso. Grande parte do meu trabalho se relaciona com literatura cristã e acompanho como os títulos e as teses são, via de regra, vitoriosos, mas não falam da vitória pela dedicação, pelo esforço, pela luta, mas vitória pelo merecimento que teriam (sob a ótica dessas teses) de serem vitoriosos e conquistadores apenas por serem cristãos evangélicos.

Mas o cerne dessa questão é tão maniqueísta quanto indefensável. Vivemos uma geração tão problematizada, tão complexada, tão complicadinha que tudo se torna culpa do outro, do externo, do alheio. Não existe maldade em nossos pensamentos, em nossas ações, em nossas atitudes. Não há nenhum homem mal sequer, a culpa é sempre do sistema, da sociedade, da família, da escola, da TV. O filho não repetiu o ano porque foi preguiçoso e o pai omisso, mas porque foi perseguido pelos professores e incompreendido pela sociedade. O assassino misógino ou homofóbico matou porque teve o seu espaço e seus direitos desrespeitados.

Detesto a perspectiva segundo a qual a minha condição (seja lá qual for) me dá o direto de desprezar a sociedade, o próximo e bem comum. Detesto quando essa perspectiva é utilizada como desculpa por marmanjos infantilizados ou garotinhas inconsequentes de quarenta anos de idade; quando se utilizam dela pastores, padres, pais de santos e outros líderes religiosos para não serem cidadãos cumpridores dos deveres; quando qualquer gênero sexual a utiliza como condição para que não possam ser criticados, mas possam criticar e ofender os demais; quando políticos e líderes civis se servem do poder para servir a si mesmos.

Que outra perspectiva senão a de “eu sou melhor do que todos vocês, por isso posso fazer o que eu quiser, independente das consequências” gera absurdos como assassinatos de homossexuais nas ruas, corrupção generalizada em todas as esferas de poder, abuso eclesiástico e espiritual em todas as religiões institucionalizadas, professores reféns de alunos em escolas e faculdades de todas as classes e representações sociais? A mais recente demonstração de “somos melhores que vocês” vem dos alunos da USP, que invadiram prédios, depredaram patrimônio público e vandalizaram o campus porque a PM, chamada a estar lá, não permitiu que fumassem maconha.

Outro dia, Pondé escreveu um texto criticando a “marcha dos sem ipad”. E um dado assustador sobre a situação me saltou aos olhos: em vários países europeus já há uma segunda geração inteira que nunca trabalhou, vivendo de proventos ou dos pais já idosos ou dos governos, cada vez mais afundados no caos econômico. Mas isso é problema deles, porque essa geração tem o “direito de ser feliz”. Aqui, políticos querem colocar a felicidade como direito pétreo na Constituição Federal. Outros parlamentares querem aumentar para 21 anos a idade mínima para se trabalhar.

Nisto só me resta uma preocupante dúvida: o que os jovens desta geração farão quando forem seus filhos a bradar: Eu quero e eu mereço porque eu sou melhor do que todos vocês?

21/09/2011

Não acredito em artistas cristãos [parte 1]

por @tomfernandes
Fama, exposição e grana

Casal famoso de artistas cristãos

Estes são dias engraçados. Eu, como bom palhaço triste, quase rio da panaceia em que se transformou a dita igreja cristã brasileira (aqui englobo os evangélicos, católicos, iurdianos e espíritas confessantes de Jesus). Depois de centenas de anos dedicados à fé, ao evangelismo e, até mesmo, a uma ou outra causa social, a igreja cristã brasileira despirocou a fabricar artistas, celebridades e famosos. O último grito da moda é “converter-se” e dedicar sua arte para o louvor de Deus. Grito alto, desafinado e incômodo, diga-se a verdade. Mas é preciso dizer, há também os artistas de berço cristão, da gema.

O Brasil vive um bom momento? A igreja cristã finalmente encontrou sua voz na sociedade? A liberdade de expressão tirou os cristãos do gueto? O Brasil (fatalmente) é do Senhor Jesus? Várias são as explicações bonitinhas, abençoadas e vitoriosas. Várias são as desculpas para disfarçar a falta de qualidade gritante da acachapante maioria desses supostos artistas. Macedão, em seu blog, chegou a afirmar que 99% dos cantores gospel são endemoninhados. Se a medida para julgar possessão for a absoluta falta de talento, a afirmação do megaempresário passa a fazer sentido. O inferno, diz um amigo meu, será um megashow gospel.

Todavia, o próprio Macedo e seu ex-BFF, Malafaia (ambos donos de gravadoras gospel), revelaram o que explicito aqui: não existem artistas cristãos. Disse o Malafaia, em resposta ao Macedo: O cabra tá nervoso porque sua gravadora tá perdendo seus artistas para a Som Livre. Sobrou até para nossa Sandy, Ana Paula Valadão, uma meia dúzia de impropérios. Mas em que eles confirmam minha tese? Bom, vamos lá. Há um preceito, determinado pelo próprio cara que inventou o cristianismo, segundo o qual, ser cristão não pode ser usado para benefício próprio, mas apenas para levar a outrem o reino de Deus.

Exemplos não faltam, tanto no Antigo quanto no Novo testamentos, de pessoas que se recusaram a lucrar com seus dons. Eliseu, Elias e outros se recusaram a receber paga pelo bem que fizeram a outrem. Teológico demais? Pois bem, os denominados artistas cristãos fazem qualquer coisa, menos levar o evangelho, o reino de Deus, aos outros de forma desinteressada. Cobram, e cobram bem cobrado, por qualquer dó sustenido solto num templo de igreja. Ah, Tom, mas é apenas uma oferta de amor, pra sustentar o ministério, pra abençoar os irmãos e blábláblá… Como diria o pequeno pônei maldito: Que nojinho!

Esta é apenas uma introdução ao tema. Volto nele de forma mais detida pra discutir alguns segmentos: cantores, dançarinos, atores, e (pior de todos) escritores. Não pretendo provar por A + B, pretendo apenas discutir o tema e deixar que você mesmo tire suas conclusões. Além disso, eu sei o que estou dizendo e disse o filósofo: quem sabe não precisa provar. Termino estas quinhentas palavras com um pouco mais de polêmica. Diante do Trono faz shows ou ministrações? Pâmela, versão nacional da Britney Spears usava anel do #escolhiesperar? O padre gato tem tietes? A bispa Sônia agora é escritora?

11/04/2010

Respeitem meu direito de não adorar seus ídolos gospel

por @tomfernandes

Gosto é igual castanha de caju [cada um sabe como rimar]

Uma das grandes certezas da vida democrática é a liberdade de opinião e de expressar essa mesma opinião. Amo a não obrigatoriedade de gostar de algo. Não ser obrigado sequer a explicar minha opinião é dos meus favoritos direitos. Tenho para mim que está é a vantagem ímpar do capitalismo sobre os sistemas adversários. Como disse Max Gehringer, “o capitalismo é o único sistema que permite que você fale mal dele”.

Em outra esfera, uma das premissas básicas do cristianismo também atende pelo pomposo nome de “livre arbítrio”. Não há nada mais antagônico ao propósito nazareno do que a imposição forçosa de uma vontade, um gosto, uma opinião. Ganha quem perde, disse o Rabi, que não era fã das coisas por força ou violência.

Já disse, em outros desaforos, que não gosto de apologética. Não gosto de retórica voltada apenas ao convencimento. A conta me parece bem básica: está provado por A + B que os chatos tentam sempre provar tudo por A + B. Tampouco é porque meus amigos gostam de algo que eu me sinto obrigado a gostar também. Minha cantora favorita já havia dito: “O que eu não gosto é do bom gosto”.

Preâmbulo feito, pergunto: Quem, meu Deus, quem define quais e que pessoas, instituições, políticos, assuntos, vestidos e penteados podem ser criticados? Quem dita quais personagens podem ser criticadas e esculhambadas em twitters, blogs e sites e quais outras personagens podem apenas receber loas e salvas? Talvez seja esta a minha grande desavença com o meio gospel: os intocáveis, os inalcançáveis, os incriticáveis, os inculpáveis, numa palavra, os “ungidos”. [Leia mais ->]

04/10/2008

Questão de preconceito?

por @tomfernandes

Em um tópico de um fórum do Orkut fui acusado de ser preconceituoso. Motivo: achei e fiz graça com o fato de ser o Lula o presidente a promulgar o famigerado [olha no dicionário o sentido, por favor] decreto do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa:

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Pra mim, como diz o José Simão, o Brasil é país da piada pronta. Reproduzo aqui o que lá disse por fim:

Ora, falar da propalada deficiência do digno presidente em relação ao nosso idioma é chover no molhado, é uma crítica e não um preconceito. Todavia, se ele consegue governar o país com bom-senso, honestidade, lisura, sem envolver parentes e amigos com a coisa pública, sem denúncias e provas de seus crimes, em suma, se o impoluto presidente está levando o Brasil a lugares onde nunca na história desse país chegamos, são maiores os seus méritos por fazê-lo sem dominar a língua padrão, a mesma que é utilizada nos decretos que ele assina e nas MPs que ele baixa. Mas se não é assim, em qualquer estado de direito a crítica é parte do jogo democrático. Não por acaso o companheiro Bush é alvo de pesadas críticas e não só por não dominar também sua língua materna.

É a coisa. Conhecem o Marcelo Caron, médico acusado de ter provocado a morte de cinco mulheres e deformações físicas gravíssimas em 29? Mas vá alguém criticá-lo por sua imperícia, por seus erros cometidos. Ele também processa suas vítimas por calúnia e difamação. Suas vítimas são preconceituosas. É a coisa.

 

p.s.: vi a imagem no Pavarini, que viu no ‘Irmãos Bacalhau’.

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