Estórias de um amor antiquado
por Tom Fernandes
Capítulo 2
O dia em que Deus não me jogou um raio na cabeça
(Leia +: Capítulo 1 – Muitas guerras e a primeira grande perda)
Se aquele tivesse sido o último dia da minha vida, por mais que tudo o que eu vivi depois tenha sido plenamente satisfatório e por mais que eu nunca mais tenha sentido graves medo ou aflições na alma; se aquele tivesse sido o último dia da minha vida, eu não morreria infeliz.
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Um homem se forma e se conforma pelas pessoas que ama, pelas ideias que aceita, pelos medos que o afligem e pelas posições que defende; necessariamente nessa ordem. E logo cedo aprendi que amar envolve alguma dose de coragem e muita abnegação. Não sei se foi perder minha mãe tão cedo que me fez entender isso, ou se foi ver a Marta ir embora dois anos mais tarde, casada com um amigo do papai, ou se foi me despedir da Kátia anos mais tarde no aeroporto, quando ela foi estudar na Europa; o que sei ao certo é que o único medo que nunca tive foi o de perder meu pai.
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Sim, eu era o menino mais sortudo de todo o mundo. Embora meu pai não fosse rico e nossa casa nunca tivesse coisas para fazer inveja aos colegas de escola, eu sabia que ele estaria ao meu lado. Na volta às aulas, eu não tinha histórias de viagens mirabolantes pra contar, nem presentes importados para mostrar, minha disposição em inventar coisas fantásticas se satisfazia em me imaginar voando agarrado a cisnes, como o pequeno príncipe, ou em namorar a menina do programa de desenhos da TV, mas não em fazer nascer melhores férias que meus colegas ricos, nem em fazer do meu pai alguém muito importante para o governador ou para o bispo da igreja.
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Minha mãe se foi bem uma semana antes de acabar as aulas. Eu já havia passado, a Kátia precisava aprender a solucionar equações se não quisesse ficar na casa da tia Clau enquanto a gente ia pra fazenda do chefe da minha mãe. Minha irmã estava estudando bastante, ela sempre gostou de fazenda, dizia que meu pai ia comprar uma fazenda pra gente ser feliz cuidando de vaca e plantando arroz. Nunca gostei dessa ideia de felicidade, mas Kátia era grande demais pra ser contrariada por um fedelho como eu.
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Na sexta-feira, a Kátia chegou com a nota, o professor escreveu até que a Kátia era um assombro. Eu que fiquei assombrado de isso ser um elogio. Minha mãe a sentou no colo e disse que estava orgulhosa da filha que Deus a tinha dado. Em meio a lágrimas, ela orou agradecendo pela família, pelo papai, por mim e especialmente pela Kátia. Kátia era filha da bondade de Deus, dizia mamãe. Demorei tanto a entender isso. Tempos depois, papai me contou que, quando eles se casaram, mamãe foi ao médico e voltou com um papel dizendo que ela não podia ser mãe. Ai eles foram pra casa, e papai se sentou com ela na cama, dizendo que papel nenhum de médico ia proibir minha mãe de ter o que Deus tinha prometido a ela. Agora, mamãe estava orando pela filha que lhe dera tanta alegria. No outro dia, mamãe não acordou.
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Depois do enterro, não viajamos. Meu pai tirou licença do serviço e ficou em casa com a gente. Nossa casa estava cheia de gente o tempo todo e eu não gostava daquilo, não sei bem o porquê, mas eu não gostava daquilo. Tinha tanta gente na minha casa e eu me sentia tão sozinho.
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E, naquele dia em que a solidão me acompanhou o tempo inteiro, depois de ter feito vigília sentado na minha cama, eu fui pro quintal sentir saudades em paz. Eu era muito pequeno pra saber compartilhar tanta dor com as pessoas e ninguém me deixava chorar: eu tinha que ser forte, tinha que dar o exemplo, não podia preocupar o papai, não podia ficar triste; era tanta coisa que eu nem podia sentir a dor que me doía por dentro. Então fui pro quintal, subi na casa da árvore e lá fiquei sozinho, só eu e a dor que eu precisava sentir, a saudade que eu precisava conhecer, pois ela me faria companhia por toda a vida. Uma tia velha do meu pai disse que chorar era besteira, que a vida era assim mesmo, que ficar de luto era até pecado. Eu nem sabia o que ela estava dizendo, não queria ficar lutando com ninguém, só queria ficar sozinho.
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Aproveitei que a Tia Clau levou a Kátia pra passear no shopping – ela precisava se distrair, disse a tia –, para me esconder na casa da árvore. Lá fiquei toda a noite e pude então chorar toda a dor que meu pequeno coração precisava pôr para fora. Sem ninguém para me recriminar, pude sentir saudades, raiva, ódio, medo, ingratidão e todos os sentimentos que ocorrem a uma criança que se vê roubada como eu fui. Disse para Deus o quanto eu o odiava, o quanto eu achava que ele era mau, que ele havia mentido pro meu pai e pra todo mundo lá de casa e que, se ele fosse bom, ele traria minha mãe de volta, que todo mundo estava sofrendo por causa dele, que ele não era poderoso coisa nenhuma. Enfim, disse a Deus tudo o que eu quis, e permaneci vivo. Deus não me lançou um raio, não me rachou a cabeça como a Kátia me ameaçava que ia acontecer. Sei que adormeci aliviado, havia afinal chorado, sofrido e reclamado como eu precisava fazer.
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Depois disso, chorei muitas outras vezes, mas já era um choro aliviado, conformado com a ideia de que Deus não era vingativo; se fosse, minha cabeça teria virado um monte de cinzas. Assim, dormi na casa da árvore.
Acordei na manhã seguinte e logo me veio o medo da bronca que eu ia levar. Meu pai me daria um coça, isso era certo. Errado. Certo e quente era o cobertor sobre mim, colocado por meu pai, que, sem se importar com nada, deitou ao meu lado e lá dormiu comigo.





