Posts tagged ‘poema’

11/02/2009

o que é melhor?

por @tomfernandes

Ou isto ou aquilo

Ou se tem chuva e não se tem sol,
ou se tem sol e não se tem chuva!
Ou se calça a luva e não se põe o anel,
ou se põe o anel e não se calça a luva!
Quem sobe nos ares não fica no chão,
quem fica no chão não sobe nos ares.
É uma grande pena que não se possa
estar ao mesmo tempo nos dois lugares!
Ou guardo o dinheiro e não compro o doce,
ou compro o doce e gasto o dinheiro.
Ou isto ou aquilo: ou isto ou aquilo…
e vivo escolhendo o dia inteiro!
Não sei se brinco, não sei se estudo,
se saio correndo ou fico tranqüilo.
Mas não consegui entender ainda
qual é melhor: se é isto ou aquilo.

Cecília Meireles

Dica da Fabi

11/02/2009

Memorial vivo

por @tomfernandes

No princípio era Poesia, e

a Poesia estava com Deus,

e a Poesia era Deus. Ela

estava no princípio com

Ele. A vida estava nela

e ela era a luz do ser humano.

A Poesia se fez carne

e habitou entre nós.

Poesiaencarne!

Com cheiro, dor e alegria de gente.

Cheia de graça e de verdade.

Poesiaencarne quebrada

e dissecada pela opressão

orgulho e fome de poder.

Quebrada pelos erros

dos seres humanos.

Em memória Dela

Partilhamos o pão: corpo

Poetizado, dado por nós.

Partilhamos o vinho: sangue

da carne, sustento de nossas

vidas. Partilhemos o amor.

Celebremos a vida e a unidade!

[Inspirado nos textos bíblicos: Jo 1,1-2; 1,14-16; 1 Co 11. 23-25.]

texto de Daniel Souza, citado pelo Pava.

03/10/2008

poesia na medida certa [01]

por @tomfernandes

Desejo
Victor Hugo

1802-1885

[singlepic=3,320,240,,]

 

Desejo primeiro que você ame,
E que amando, também seja amado.
E que se não for, seja breve em esquecer.
E que esquecendo, não guarde mágoa.

Desejo, pois, que não seja assim
Mas se for, saiba ser sem se desesperar
Desejo também que tenha amigos
Que mesmo maus e inconseqüentes
Sejam corajosos e fiéis
E que pelo menos em um deles
Você possa confiar sem duvidar

E porque a vida é assim
Desejo ainda que você tenha inimigos
Nem muitos, nem poucos
Mas na medida exata para que
Algumas vezes você se interpele
A respeito de suas próprias certezas.
E que entre eles
Haja pelo menos um que seja justo

Desejo depois, que você seja útil
Mas não insubstituível
E que nos maus momentos
Quando não restar mais nada
Essa utilidade seja suficiente
Para manter você de pé.

Desejo ainda que você seja tolerante
Não com os que erram pouco
Porque isso é fácil
Mas com os que erram muito e irremediavelmente
E que fazendo bom uso dessa tolerância
Você sirva de exemplo aos outros

Desejo que você, sendo jovem,
Não amadureça depressa demais
E que sendo maduro
Não insista em rejuvenescer
E que sendo velho
Não se dedique ao desespero
Porque cada idade tem o seu prazer e a sua dor

Desejo, por sinal, que você seja triste
Não o ano todo, mas apenas um dia
Mas que nesse dia
Descubra que o riso diário é bom
O riso habitual é insosso
E o riso constante é insano.

Desejo que você descubra
Com o máximo de urgência
Acima e a respeito de tudo
Que existem oprimidos, injustiçados e infelizes
E que estão bem à sua volta
Desejo ainda
Que você afague um gato, alimente um cuco
E ouça o joão-de-barro
Erguer triunfante o seu canto matinal
Porque assim, você se sentirá bem por nada

Desejo também
Que você plante uma semente, por menor que seja
E acompanhe o seu crescimento
Para que você saiba
De quantas muitas vidas é feita uma árvore

Desejo, outrossim, que você tenha dinheiro
Porque é preciso ser prático
E que pelo menos uma vez por ano
Coloque um pouco dele na sua frente e diga:
“Isso é meu”
Só para que fique bem claro
Quem é o dono de quem

Desejo também
Que nenhum de seus afetos morra
Por eles e por você
Mas que se morrer
Você possa chorar sem se lamentar
E sofrer sem se culpar

Desejo por fim
Que você sendo homem, tenha uma boa mulher
E que sendo mulher, tenha um bom homem
Que se amem hoje, amanhã e nos dias seguintes
E quando estiverem exaustos e sorridentes
Ainda haja amor pra recomeçar

E se tudo isso acontecer
Não tenho mais nada a lhe desejar

09/11/2006

Um sentido ou sentimento?

por @tomfernandes

Rômulo Rodrigues ©

Que coração é esse
que não sente o que não sente
que não conta o que não quer
que não fala mais da gente?

Que coração é esse
que parece frio como pedra de rio
que parece mole como o papo do fole
que parece doce como se de fato o fosse
que parece sentir o que de fato sente?

Que coração é esse
que me veio ficar no peito
que me fez assim, desse jeito
que me perdoou a mim
por que o que sente
é o que sinto
e a mim não mente!

mais um poema do meu amigo Rômulo

08/11/2006

as ondas e a maré

por @tomfernandes

As ondas e a maré ©

Charleston Fernandes

A onda vem nesses dias

como fosse um carinho displicente

nos pés fatigados de um pescador de ilusões,

amiga fraterna

de suas lembranças mais antigas,

molhando dedos feridos,

cicatrizes antigas

esquecidas no tempo antigo de quase outro tempo.

Maré mansa de doces melancolias

acalentadas no desacerto moderno

de horas e dias perdidos sem retorno,

como fosse as ondas de um rádio

tocando novos sucessos de um amor antigo.