Posts tagged ‘revisor’

22/08/2009

O preço e o valor do seu trabalho

por @tomfernandes

Uma das maiores discussões entre editores, revisores, diagramadores e todos os outros profissionais envolvidos no processo editorial diz respeito aos valores pagos. Já ouvi gente dizendo que, se recebe tanto, faz um serviço x; mas, se receber só tanto, faz um serviço -x. Sei de uma coisa, toda pessoa que me disse isso nunca mais pegou um serviço por indicação minha. Abaixo, uma reflexão do meu amigo Pablo sobre o tema.

O Tradutor Profissional pergunta se vale a pena trabalhar direito, mesmo recebendo pouco. Ele lembra a história daquele cozinheiro de restaurante que, por ser mal pago, cuspia na comida. (…) O infeliz que comia no restaurante, coitado (…), comia comida com cuspe. E quem come a nossa comida não é nem a agência nem o cliente da agência, mas sim o leitor.

Faço minhas suas palavras. Não somos obrigados a consentir com o valor e o prazo do cliente. Não precisamos sequer aceitar o trabalho que nos oferece. Já que decidi revisar, que faça bem-feito e entregue em dia.

Quando alguém contrata um revisor, está interessado em qualidade. Revisar com excelência é questão de respeito (ao cliente, ao leitor, ao colega de profissão). Se isso não fosse motivo suficiente para caprichar: não há melhor forma de divulgar seu trabalho que revisar com perfeição.

16/03/2009

A quem alguns também chamam revisor…

por @tomfernandes

ALGUMAS LINHAS SOBRE A NOBRE PROFISSÃO DE EMPREGADO DE LIMPEZA (A QUEM ALGUNS TAMBÉM CHAMAM ESCRAVO, CAPACHO OU REVISOR),

por José Alfaro (*)

Dois perigosos lugares-comuns minam a credibilidade dos agentes ligados à produção de conteúdos escritos:

  • o acreditar-se que quem sabe uma língua estrangeira pode ser tradutor;

  • a assunção de que quem escreve razoavelmente bem em português ou quem tem uma licenciatura em Linguística ou em Línguas e Literaturas pode ser revisor.

Nada de mais errado! A um tradutor, exige-se muito mais do que um (bom) conhecimento da língua de partida. (Além de outras competências específicas, terá de dominar, e muito bem, o português, deverá ter sensibilidade, maturidade e uma excelente cultura geral.)
Da mesma forma, as competências requeridas a um revisor não se podem confundir com uma simples licenciatura em Ciências Humanas. Conheço grandes revisores que não têm mais do que o antigo 7.º ano dos Liceus (actual 11.º) ou que vêm de áreas bem diferentes, como a Matemática ou a Biologia. Por outro lado, o diploma em Linguística ou em Línguas e Literaturas, por si só, não habilita ninguém para o trabalho de revisão.
Além de ter um excelente domínio da língua portuguesa, um revisor necessita de conhecer as regras tipográficas e de possuir capacidades de atenção excepcionais (com grande agilidade, em constantes movimentos de zoom, tem de voar do geral para o particular – precisa de dissecar, de isolar a árvore no meio da floresta – para, logo de seguida, regressar à macroestrutura da frase). Por fim, mas não menos importante, um bom revisor deverá perseguir a dúvida até à exaustão e exige-se-lhe uma cultura geral fora do comum. Não é necessário ser-se super-homem ou super-mulher, mas estamos a falar de um trabalho realmente especializado!

Só a total desconsideração pela actividade pode justificar que qualquer um se julgue com capacidades para ser revisor. Tido (mais ou menos conscientemente) como o degrau mais baixo da escala… «criativa», o revisor limpa a grande «obra», vela para que o autor ou o tradutor não caiam no ridículo, acaba mesmo por o(s) salvar em muitas situações. Por tudo isto, é fundamental que a actividade se torne profissão e que o degrau inferior suba até ao lugar que por direito lhe compete.
Todos conhecemos autores – grandes escritores, que provavelmente a posteridade acolherá –que dão erros, da mesma forma que muitos revisores não escreverão nunca um texto que os distinga da mediania comum a todos os mortais «escreventes». Por isso, o processo editorial obriga a um trabalho de equipa: um revisor e um autor não são, para bem deste último, inimigos; parceiros de trabalho, caminham para um mesmo objectivo – se não a excelência, pelo menos a competência do trabalho final.

Por outro lado, os livros de grandes escritores estão longe de preencher a oferta editorial, e muitos dos textos que vêem os prelos chegam às editoras a necessitar, mais do que de revisão, de reescrita. Porque se publicam então? Por razões várias que não cabem nesta reflexão (por exemplo, porque têm mérito e relevância científica, apesar das deficiências da escrita). O que me importa agora sublinhar é a necessidade de reflectirmos sobre o trabalho de editing, tão malvisto entre nós. Reflexão interessante, desde logo porque o editing desafia os limites sagrados da autoria.

E aqui peço emprestadas as palavras da minha colega Conceição Candeias – docente da Formação Avançada em Revisão e Edição de Texto [editing, não publishing] da Universidade Católica – que servem de teaser ao curso deste ano:
«É inegável que o futuro do revisor não pode manter-se dentro dos velhos moldes a que tem estado sujeito nas últimas décadas, obstinadamente preso ao papel e à "caça à gralha", e alimentando uma desajustada reverência ao conceito de autoria, tradicionalmente considerada intransponível e intocável. O panorama editorial tem vindo a mudar, levando a repensar não só os conceitos de autoria e de escrita, mas também, ontologicamente, o lugar e a dimensão do revisor, a quem cada vez mais explicitamente se atribui o papel de mediador de processos de linguagem, "afinador" de intenções, "facilitador" de discursos…
Considera-se que à responsabilidade que impende sobre a figura ágil, atenta e discreta do revisor deve corresponder uma formação compatível, propiciadora e fortalecedora de conhecimentos, métodos e ferramentas de trabalho consistentes, com vista a uma efectiva melhoria das competências desta classe de profissionais, tão precisada de orientação e legitimação.»

Três notas finais:
1. Sou editor, não sou revisor (nem professor de revisão), e tento recorrer a profissionais competentes em todas as circunstâncias. Foi a constatação da dificuldade em encontrar no mercado bons revisores em quantidade que me levou a conceber esta Formação Avançada.
2. Não atiro pedras aos telhados vizinhos indiscriminadamente. Apesar de colaborar, sempre que possível, com bons revisores, sei que no catálogo da minha editora há livros com gralhas. Em alguns casos, conheço de cor a página em que elas estão e os deuses sabem como me tiraram o sono (num caso específico, em que a gralha se guindou a uma posição dominante, não consigo sequer ver o livro à minha frente). Entre o caso da gralha que existe na página tal do livro tal e a total inconsciência que legitima (?) o despautério a que vamos assistindo, vai o tamanho de um mundo.
3. Depois de escrito este texto, chega a notícia de que as instruções de um jogo disponibilizado pelo Magalhães estão crivadas de erros. Dizem os jornais que o programa terá sido traduzido por um emigrante português que há muitos anos vive no estrangeiro e que tem a 4.ª classe. A desconsideração pelo trabalho de profissionais, de tão habitual, começa (perigosamente) a parecer natural…

(*) Editor desde 1987. Coordenador da Pós-Graduação em Edição, da Pós-Graduação em Livro Infantil e da Formação Avançada em Revisão e Edição de Texto da Faculdade de Ciências Humanas da UCP.

Muito bom ler um texto tão claro sobre o profissional revisor. Será que o Pablo vai gritar: Cadê o revisor?

20/12/2008

A microsoft despediu o revisor?

por @tomfernandes

Acabei de instalar a nova versão do MSN. Até aí tudo bem. Mas, ao final da atualização, abre um pop up com a seguinte mensagem:

Amigos nunca é demais!

Ei, quando foi que as regras de concordância mudaram? Ou é chatice minha?

[singlepic=11,320,240,,]

Clique na foto para ver em detalhes.

Ah, na carona, estão a Cássia e o Pablo.

17/12/2008

Ana Maria Braga despediu o revisor?

por @tomfernandes

[singlepic=6,320,240,,]

Pôxa, enquanto tantos sites se preocupam com a qualidade de seus textos, o website do Mais Você traz uma receita de mau português desse nível?

Fonte: Querido Leitor

11/12/2008

O dia em que um tradutor me salvou.

por @tomfernandes

Só uma vez? Não, quer dizer, sim. Profissionalmente falando, já fui salvo por tradutores muitas vezes. Mas, certa vez, há exatos dois anos, um me salvou a pele do que talvez se tornasse uma experiência angustiante por demais.

Havia eu sido convidado a participar da primeira edição brasileira da LittWorld, que se configura em um congresso mundial de editores cristãos. Lá fui eu, quase 10 dias em Atibaia, numa pousada excelente. Na verdade, tudo lá era excelente [também, pelo preço. Mas isso é outra história]. Gastei os dez dias como quem aproveita os primeiros dias da faculdade dos sonhos. Realmente, o tal congresso deu um novo rumo à minha carreira e a vários projetos pessoais.

Bom, onde entra o tal tradutor-salvador? Epa, deixe-me fazer uma emenda. Não era tradutor, mas intérprete. Um excelente intérprete PT-ENG por sinal. A diferença? Pergunte pra um. Acontece que o tal congresso foi indo. Acabamos travando animadas discussões, o tal tradutor [ok, intérprete] era um excelente contador de causos. Ah, havia uma feirinha e eu fui comprando livros. Comprei uns 800 dólares de livros ao todo [com livros sendo vendidos em média a 10 dólares, a compra pesou algo em torno de uns 40kg] e enchi minha mala, que havia ido quase vazia. E o congresso acabou. E aí começou a cilada. Era uma sexta-feira de manhã. Um colega me ofereceu carona pra São Paulo. Aceitei. Lá, visitaria duas editoras e pegaria um ônibus-leito no fim da tarde [até gosto de avião, mas detesto aeroporto]. Quando fiz o check-out e fui colocar a mala no bagageiro do carro, pressenti a encrenca. A mala estava ‘incarregável’.

O colega editor me largou no metrô da Sé e lá fui eu ‘arrastando’ a biblioteca móvel. Desisti das visitas, peguei o metrô e fui pra estação do Tietê. Aí deu-se a m… . Por conta de chatices, trabalhava com três bancos, sendo um regional [antes de ter sido comprado pelo Itaú], mas nunca tive cartões de crédito [detesto a idéia de pagar para usar dinheiro dos outros]. Passo no caixa eletrônico pra sacar o dinheiro da passagem e… o dinheiro reservado para a viagem não estava lá. Vou ao caixa do outro banco. Havia dinheiro, mas não o suficiente para a passagem. Somei com o que trazia na carteira e faltava-me uns trinta reais. Ligo para casa, minha mulher não estava. Ligo para a casa da mãe, também não estava.

Eu já estava nervoso, faltavam menos de duas horas pra saída do ônibus e a perspectiva de passar a noite em claro na rodoviária do Tietê não me agradava nem um pouco. Ligo de novo pra todo mundo e ninguém me atende. Por fim, o celular acaba a bateria. Ligo do orelhão a cobrar pra casa da mãe. A vózinha, já bem vózinha [e dada a desentendimentos que, em outras horas seriam cômicos] pergunta por que eu não volto de avião. Desligo o telefone e fecho o muque pra dar um muro na parede. Penso em xingar, maldizer, amaldiçoar etc. Mas respiro fundo e resignado digo: Deus, por favor, me ajuda! [quem crê crê, quem não crê...].

Quando olho pro lado, o colega tradutor [sim, intérprete], com uma sacola cheia de ‘foninhos’, me cumprimenta: ‘Perdido?’. ‘Você não sabe o quanto’, respondo. Acho que ele havia ouvido parte da minha tentativa de explicar pra vózinha que alguém havia limpado a minha conta e que eu estava preso ao ar livre em São Paulo. ‘Vamos tomar um lanche?’, ele perguntou e me dei conta de que nem havia almoçado. Na lanchonete, ele pergunta o quanto eu precisava. Digo a quantia e ele me dá mais que o dobro. Com a evidente cara ‘rachando de vergonha’ pego o dinheiro e vou comprar a ‘bendita’ passagem. Conversamos mais um tanto, o ônibus dele pra Belzonte sai primeiro e nos despedimos. Entro no ônibus e durmo toda a viagem, com a mais profunda sensação de alívio. Ao chegar em Goiânia, por volta das cinco da matina, pego um taxi e acordo minha mulher que ainda dormia. Após um banho e coisa e tal, a fofa me explica que ‘fulano precisou de um dinheiro sei-lá-pra-quê’ e que o gerente da outra conta ligou avisando que ia mover o saldo para a conta de investimentos que tínhamos na época. ‘Tudo bem na viagem de volta?’, ela me pergunta.

O nome do sujeito? Charles S. Bacon, cuja firma, Tradusom, fez as simultâneas durante as palestras e painéis realizados ao longo dos quase dez dias. No mesmo dia, falei com ele e ressarci os valores. Não tive mais oportunidade de falar com ele, mas, vendo os testemunhos constantes aqui de generosidade, me lembrei de seu belo gesto de altruísmo. Não sei se alguém aqui o conhece, mas se sim, mande um abraço forte e diga que ele salvou um cerradino de uma enorme cilada.